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CAPITULO XVIII

MPOLO OU NZIMBU

Com um e outro destes termos quer-se designar o discurso ou panegírico, fúnebre a um príncipe ou rico senhor e mais os festejos e danças que se realizam nessa altura.

O P. Marichelle define NZIMBU como sendo «dança por ocasião da morte de chefes importantes» danse qui s'exécute à la mort des chefs importants.

Mas o MPOLO ou NZIMBU - termos equivalentes mas usado um ou outro mais neste ou naquele clã não é só a festa com dança. É também o panegírico do morto, a narração das causas possíveis da morte, a verificação de se sim ou não foram empregados todos os meios conhecidos para que o indivíduo não morresse.

Desde já, vamos falar da ligação, que se deve aceitar, entre NZIMBU e NZINGU. Qualquer pessoa pode encontrar uma certa homofonia nos termos. E NZIMBU e NZINGU se aplicam a-morte, funerais, fim desta vida e começo de outra.

NZINGU (pl. ZINZINGU) é nome de uma liana e significa também volta de corda, torcedura. Tem a NZINGU a aparência perfeita de cordas entrelaçadas. Apresentam-se como enormes calabres, quer no comprimento quer na grossura, torcidos de um modo perfeitíssimo. É obra da natureza, de Deus (Nzambi). Não se pode destorcer. Assemelham-se a cordas que se entrelaçaram mas que fazem parte de um todo homogéneo

Por isso afirmam no seu adágio:

Nzingu kikanga Nzambi:
Muntu limonho pódi kútula ko.

Nzingu (liana) que Deus amarra:
O homem não a pode desamarrar.

Só Deus tem o poder de amarrar e desamarrar a vida.
Mas, para melhor compreensão, vejamos outros termos.

Zinga - v. t. - Viver longamente.
Zinga - v. t. - Fazer girar, fazer dar voltas.
Luzingu (pl. Tuzingu) - Vida, existência.
Nzingu (pl. Zinzingu) - Nome de uma liana, volta de corda.

A vida, pois, é como liana de Deus: só por Ele amarrada; só por Ele desamarrada.
E é por tudo isto que à entrada dos cemitérios costumavam colocar a liana NZINGU. Era proibição de ingresso (a não ser para sepultar alguém) e sinal de vidas que se apagaram, de lianas desamarradas por Deus, pois, também havia sido Ele quem lhes dera a existência, que as havia amarrado.

As cerimónias do MPOLO ou NZIMBU ainda hoje se realizam e quase nos mesmos moldes e solenidade de outrora. Continuam a ser para os grandes e nobres, para os que têm posses.

No tempo dos funerais que já descrevemos, realizava-se a seguir à morte e enquanto se juntavam as coisas necessárias para o enterro ou mesmo na altura deste.

Hoje, como temos frisado, a lei das 24 horas leva a enterrar cedo e sem a possibilidade da pompa antiga. As cerimónias de MPOLO, por que exigem muitos gastos e longa preparação, são agora transferidas para o primeiro aniversário da morte dos grandes senhores. Coincidem também com o levantar do luto.

Segundo antigas leis não podia correr e enterrar-se alguém de grande posição social sem

que fosse dado ao público conhecimento da sua origem familiar, posição social, o seu viver
e proceder durante a vida, os seus dotes e predicados e, por fim, as supostas causas da sua doença e morte.

  Tudo, isto era. relatado ao público nesta cerimónia de MPOLO pelo Nkotokuanda, homem tido por hábil e perfeito orador.

O Nkotokuanda é escolhido entre os que melhor conhecem os usos e costumes, que mais conhecimento têm da fraseologia e provérbios dos naturais. Não é, na verdade, qualquer um que se desempenha com brilho deste encargo. Por isso, será muito bem escolhido e muito bem pago.

É ele homem experimentado nestas andanças. Mas não vai às cegas desempenhar a missão que lhe incumbiram. Falará com a família, vizinhos e amigos do falecido sobre o que foram as suas origens, sua vida, seus encargos, sua doença, etc., etc.

Para a festa do MPOLO são chamadas todas as autoridades gentílicas. Eram convidados bem a tempo. Os convites, eram feitos oralmente, por pessoa de família ou por delegado desta.

Os, Zindunga não faltarão, não podem faltar. Quer nos actos solenes dos grandes chefes e senhores, quer na morte e cerimónias a ela ligadas dos mesmos, a presença dos Zindunga era imposta como delegados do Nkisi-Nsi. Hoje parece ser mais para aparato e para abrilhantar a cerimonia.

Marcados são os lugares para as autoridades europeias e gentílicas; igualmente o recinto onde se exibirão os Zindunga.

Onde dançam os Zindunga exibir-se-ão também os das danças guerreiras, os da Sanga. Já sabemos que esta dança era usada nos funerais dos nobres. Fingiam lutas com pessoas invisíveis, havia simulacros de morte violenta à catana ou zagaia.

Eram, outrora, para afugentar - os espíritos maus - os Bandoki-quando levavam o nobre defunto a enterrar.

Os Zindunga são sempre os primeiros a chegar. Só se deslocam de noite. De madrugada já lá estarão. É a parte mais cara da festa.

Estas solenidades atraem um sem número de pessoas. Vêm de toda a parte.

Os convidados vão sendo conduzidos para os seus lugares por um «mestre» de cerimónias, que é já o Nkotokuanda do discurso fúnebre.

Ás autoridades gentílicas não se dá este ou aquele lugar indiferentemente, este ou aquele assento; umas terão direito e cadeira (como as europeias); outras, esteira e tapete; outras, esteira e luandu; outros, banco, etc., etc. O chão é, do público!

Enquanto não chegam todas as autoridades, os Zindunga vão rodopiando e exibindo-se.

Presentes todos os convidados (a festa é, de costume, marcada para o meio da tarde) e deixando os Zindunga de dançar, o Nkotokuanda tratará de dar início ao seu trabalho, ao seu discurso que é sempre muito longo.

Ao lado do Nkotokuanda está um homem que segura a Kimpaba.

Significa que o Nkotokuanda está revestido de autoridade e mando. A Kimpaba será a do Rei da terra, da autoridade maior, ou até - e é o mais comum - a do defunto de quem se vai falar.

Ele a mostrará à assistência e imporá silêncio.

Segundo a pragmática estabelecida, por umas três vezes, chama a atenção das gentes o mais fortemente que possa:

 Eeem .............Eeem ............Eeem............

Passa a nomear todas as entidades com direito a MPOLO.
Pronunciado o nome de cada uma dessas entidades pelo Nkotokuanda, rufa o tambor.
É quase sempre o Ndungu iilu, o tambor do chefe.

Ngeie ikua ndungu iilu sonsa:
Beno bonso fuene kuenda.

Quando ouves tocar o ndungu iilu:
Todos vós tendes que ir.

Mas, arrumado o mesmo tambor, é sinal de morte.

Ndungu iilu mu luvúkulu:
Va siala nkází ko (v'ikanda).

Tambor real suspenso atrás da casa:
Não ficou chefe de família que tome conta dele.

E os homens com os Zimpungi, defesas de elefante tornadas instrumentos de música, fazem ouvir o «Cháprum... prum... prum ... »

Os Zimpungi são insígnias de nobreza. São usados, quase sempre, os do defunto, que já os havia recebido de seus antepassados.

Ntanda zimpungi:
BakúIu b'ámi babika.

Conjunto de zimpungi:
Os meus antepassados mo deixaram.

E começa, então o Nkotokuanda:

Fulano ... Uá Mpolo (tem direito a Mpolo) - Cháprum... prum... prum...
Sicrano ... Uá Mpolo - Cháprum... prum... prum...
Beltrano... Uá Mpolo - Cháprum... prum... prum... Etc., etc., etc.

Podem aparecer de 15 a 20 nomes. Para cada um rufa o tambor e os zimpungi tocam Cháprum... prum... prum...

Entrando no assunto, o Nkotokuanda afirmará encontrar-se ali porque disso o encarregaram e, portanto, que não vejam em suas palavras simples imaginação. Estudou o assunto e a vida do falecido. E vem logo um chuveiro de provérbios que enuncia, deixando a conclusão ao saber e argúcia das autoridades e velhos do povo.

Recomeça a musica. Volta o rufar do tambor e os «Cháprum... prum... prum ... » dos zimpungi. Rodopiam os Zindunga e dançam os familiares do defunto.

De Kimpaba empunhada, o orador chama novamente à ordem e ao silêncio: Eeem... Eeem ... Eeem ...

E torna ele: Todos sabem que o falecido era filho de fulano de tal, da família tal, etc., etc. Relata a vida do finado, seus serviços, suas acções notáveis, o viver para com os outros do seu meio familiar e social.

Falará das ausências que o falecido teve da terra para angariar bens de fortuna, se viveu ou não feliz, se foi titular, e em que circunstâncias... Por fim, os males de que sofreu e os que teriam sido a causa da morte.

Como na mentalidade deles ainda atribuem a morte mais à. maldade dos outros, à inveja dos inimigos e não tanto a factores de ordem natural e física, o Nkotokuanda tentará explicar a causa provável da morte: se a perseguição dos invejosos seus inimigos; se bandoki da família ou estranhos; se feitiços, etc., etc.; se houve a «confissão» - fiabiziana - a tempo e horas para se saber se alguém da família lhe queria mal; se os tratamentos e adivinhações feitas foram as mais indicadas...

Acabará por afirmar que todos os meios foram empregados, que se não pouparam gastos, mas que, afinal, de nada valeu tudo o que se fizera! Estava morto!

Volta, nesta altura, outra chuva de provérbios.

Ivangu kiiza vi dongo.

A forquilha vem para a garganta.
Chegou o fim, tudo acaba.

Lukata lumatumbi lumueka tukuendila befu bonso:
Ibila iau nzila Nzambi.

Em caixão (mesmo simples) todos nós vamos:
Porque é esse o caminho marcado por Deus.

Bákala iaku i nkambu nvumbi:
Ka sevuanga ko.

Dos homens que pegam ao pau do morto:
Não se deve escarnecer.

É coisa que acontece a todos; 'uns, hoje; outros, amanhã.

Nzambi uvanga ulumbu biole, builu i muinha:
Ngeie kambua ufuá imuinha, ibuilu uala ufuá.

Deus fez dois dias, a noite e o dia:
Se não morreres de dia, morrerás de noite!

Não há possibilidade de escapar à morte!

É quem mais se quer mostrar sabido e empregar o provérbio mais adequado a estas circunstâncias.

Saltam os Zindunga para o terreno, saracoteiam-se os da família, rufam os tambores e renovam-se os Cháprum... prum... prum...

O Nkotokuanda com dificuldade retomará a palavra. Já começam a ficar saturados. Mas terá que a haver para anunciar o título do falecido.

A custo, empunhando gravemente a Kimpaba, como que por favor lhe concedem novamente a palavra.

Explicadas as causas da morte, as diligências feitas para a cura, etc., etc., passa-se, então, à concessão ou ratificação do título familiar, que tanto pode ser de Kapita, Fursiko, Ngúvulu, Nkotokuanda, Bula-Ngongie, etc., etc.

Isto é feito de combinação prévia com os membros da família do defunto e os maiorais da terra e anunciado pelo mesmo Nkotokuanda.

Finda a proclamação e concessão do título, passa-se à parte final da cerimónia: pagamento, mata-bicho, copo-de-água (e não se tome o termo, nesta época, por exagerado) aos presentes.

As próprias autoridades europeias, e não pequeno número de outros europeus, são muito bem servidas. Honra lhes seja feita!

Comidos e bebidos, a pouco e pouco vão dispersando os grupos - mazanza.

Os que ficam, e não são poucos dos naturais, continuam pelo resto da tarde e pela noite dentro a dançar e ver dançar os Zindunga, os das danças guerreiras e a tomar parte nos restos dos comes e bebes.

Não são muitos os que fazem a festa do MPOLO. Ficam sempre muito caras. Não são para qualquer e é, na verdade, caso para tomar o adágio: «quem quer festa sua-lhe a

Assistimos a duas festas de MPOLO: por 1954 no Caio, a uns 18 quilómetros de Cabinda, na estrada que liga a Lândana, a da família de um tal Mingas; em Fevereiro de 1970, na aldeia da Nova Estrela, logo por detrás da Administração de Cabinda, no sopé do morro do KIZU, à de Júlio Augusto Barros Jack, falecido a 12 de Novembro de 1968.

Da data da morte de Jack à da sua festa de Mpolo, 15 meses, concluiu-se que a festa não é necessariamente no dia do 1. aniversário da morte. Anda à volta dessa data, mas não antes dela.

Este Jack faz-nos recordar uns signatários do Tratado de Simulambuku King Jack, Príncipe da Ponta do Tafe; Batte Jack, Governador do Caio.

Este nome Jack, como facilmente se nota, tem sabor inglês e foi certamente dado (não adoptado) aos primeiros Cabindas que o passaram a usar por terem estado ligados com algum inglês com esse nome.

O mais interessante está no facto de o nome lhes ser aplicado pelos próprios naturais e por ter havido em suas vidas urna «mudança de indivíduo» que se completa pela mudança do nome. (Cf. s. f. f. Cap. Nomes e Apelidos).

A família Barros Espanhol não tomou este nome - o de Espanhol - por um de seus antepassados ter sido o cozinheiro, em Lândana, na casa de um senhor espanhol, Dom José Del Valle?

E o nome de Franque não é uma deturpação de Francês ou do nome de um francês que até se chamava Frank ou Franque, dados do Ir. Evaristo Campos e que nos confirmaram velhos Cabindas, das riquezas do qual, depois de ter morrido em Cabinda, um dos Franques, já bem lançado na vida, ficou senhor?

A aplicação dos nomes feita desta forma é a-que se concilia com os costumes. E a existência de valiosas Bimpaba na posse dos Jacks e Franques, que não na do Espanhol, que foi simples cozinheiro ainda que mui digno na origem, hoje família muito respeitada, só serve para confirmação.

Mas voltemos à festa do MPOLO.

No tempo que medeia entre a de 1954 e a de agora, uns quinze anos, não notamos diferença substancial.

Vamos, pois, ficar pela de Júlio Jack, mais recente.
Junto do recinto escolhido para a dança dos Zindunga fez-se uma pequena casa de papiros e palhas, de uns quatro a cinco metros quadrados por uns dois e meio de altura. O tecto é de duas águas.

Uma das paredes de topo, uma das cumeeiras, a que fica voltada para o recinto da dança, não existe para que se possa ver o que está dentro e admirar a ornamentação.

Por dentro, as paredes são revestidas por panos garridos.

Em mesa, ao centro, coberta por toalha ou colcha de froques, está exposta a fotografia do Jack, já muito deteriorada.

Em outra mesa, mais pequena e mais baixa, coberta por pequenos tapetes, estão as quatro Bimpaba recebidas dos antigos e que passarão aos sucessores. São as mais belas e mais ricas que até hoje nos foi dado ver e admirar.

Uma delas, formada como que por uma cobra de prata maciça, não pesará menos de cinco quilos.

Outra, a mais bela, ainda que não a mais pesada, tem a seguinte inscrição:
 
 

CAFE CUMHA FILHO DO DEFUNTO MAMBUCO MANIBUCE
DO FUTILA

1865

Donde este nome? Será que a Kimpaba era de outra família e veio a cair nas mãos dos Jacks? Não é muito provável.

Nome de pessoa de família antes de lhes terem dado o de Jaks?

Hipótese muito mais de aceitar.

Nesta mesma Kimpaba, imediatamente por cima desta inscrição e a meio da lâmina, estão representadas duas cobras com as cabeças juntas que parecem comer-se. Aplica-se-lhes o provérbio:

Mbuadi kamini mbuadi andi.
A mbuadi (outro nome da cobra nduma) não come a sua mbuadi.

Rico não vence rico, Príncipe não passa à frente de Príncipe. São iguais, da mesma força.

Numa bacia, que foi usada em vida pelo Jack, estão os 3 Zimpungi da família: Nuni marido - Nkazi - esposa - Muana - filho.

São resguardados e ornados por uma espécie de malha feita de fibra de Mpunga

(Urena lobata) ou da fibra do embondeiro ou do ananás. Posteriormente foi pintada de verde essa malha.
Para acompanhar as danças dos Zindunga tomam, os basiki zimpungi, tocadores de zimpungi, os marfins para os Cháprum... prum... prum...

Também o tocador do tambor Ndungu iilu não o deixa totalmente parado. Este tambor tem de 2,50 m a 3 m de comprimento.
Este tambor do Jack tem particularidades não muito comuns aos outros:

1 - a pele dos tampos é esticada por uma boa dezena de fios torcidos e que nos pareceram de pele de ngulungu, o antílope mais comum da região.

2 - os símbolos que se encontram no tambor:

a) - pai transportando o filho às costas (cf. bandeira do Kapita Muenimpolo): o filho nada é, em princípio, sem a ajuda do pai.

b) - uma palma da mão (cf. idem.): a palma da mão é escrava das nossas necessidades. Assim deve ser o súbdito para o seu senhor.

Na Mpolo do Mingas o ndungu iilu estava pendurado na casita, ao longo de uma parede lateral, da «exposição».

Os Zindunga, como só podem aparecer e desaparecer de noite, chegaram de madrugada e partiram, depois, com escuridão cerrada, muito perto da meia noite.

Não vieram propriamente para alegrar o público, mas para prestarem as suas honras ao falecido.
Por isso, cada um deles, por ordem de dignidade, vem prestar homenagem à memória do falecido: perante a fotografia e as insígnias prostra-se por momentos. Em seguida dança, na verdade volteia.
Por pouco tempo. Depois vai sentar-se no lugar que o chefe dos Zindunga lhe indicar. Sequem-se todos os outros, cada um por sua vez. Como já sabemos, são dez.

Nos intervalos das danças de cada Ndunga, e às vezes ao mesmo tempo, os familiares do falecido - mulher, sobrinhas, filhas, etc. etc. - também dançam. Estes familiares terminam cada uma das suas actuações com uma espécie de guinchos, berros, apupos.

Esses berros e apupos, dizem, querem significar certa alegria e prazer por se ter acabado o luto, e serão ainda para afastar para longe deles a morte, os bandoki.

É fácil conhecer os familiares do morto. Trazem na cabeça grinaldas de ervas ou, a tiracolo, folhas tenras de palmeira.

Foi Nkotokuanda, quem fez de mestre de cerimónias e proferiu o elogio fúnebre do Jack, André Tati Sebastião, também natural da Nova Estrela.
 
 

Figs. C 42 - O Nkotokuanda André Tati Sebastião revestido das insígnias de seu cargo

Fig. C 43 - Um Ndunga rodopia em homenagem ao falecido Jack nas cerimonias do Mpolo, em frente ao Nlinge

Fig. C 44 - Pessoas da família do falecido, com grinaldas de ervas, juntam-se as homenagens dos Zindunga

Fig. C 45 - Tocadores de Zimpungi e de Ndungu-lilu nas cerimonias de Mpolo







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CAPITULO XIX

FUNDA-NKANU

FUNDA-NKANU é o julgamento de uma querela. Funda-Nkanu é palavra composta, como perfeitamente se nota. É composta de: Do verbo KUFUNDA - Acusar, denunciar, informar, e de NKANU substantivo Questão, julgamento, processo.  O julgamento das questões é sempre feito pelos chefes. São eles os juízes (Likunzi, pl. Makunzi - árbitro).

Essas questões podem ser pela falta de cumprimento das leis de Lusunzi, leis morais indígenas. Provocam, logo que conhecidas directamente ou por denúncia feita pelos próprios infractores, o Funda-Nkanu. Outros factos que podem ser colocados em tribunal por quem se julgar lesado ou ofendido:

Divergências entre casados,
Dívidas negadas,
Dívidas reconhecidas mas não pagas,
Prejuízos em negócios,
Adultério,
Estupro, Injúrias, violências, ferimentos provocados, lutas, etc., etc,

Há casos em que o próprio povo aplica logo a justiça, v. g. quando os delinquentes são apanhados em flagrante delito:
roubos nas plantações
adultério ou estupro,
relações sexuais faltando às leis de Lusunzi (v. g.  apanhar alguém a praticar o acto sexual fora de casa e directamente sobre o solo - insulto, grave falta contra o Nkisi-Nsi).

Para que haja Funda-Nkanu o queixoso apresentasse ao Nfumu-Nsi, ao chefe da terra.

 Formula a queixa diante de pelo menos dois adjuntos do chefe. Esses adjuntos são chamados Bananga.
 
 

Fig. P 70 - Representacao do peixe Mbuli-Vanga encontrado num tumulo (0,19x0,15)






E começa logo por pagar o Kota-Lumbu, os preparos.
A seu tempo o Nfumu-Nsi avisará ou, o que é mais comum, mandará avisar a outra parte e dizer-lhe de que a acusam.

Com os seus bananga o chefe vai estudando o caso e procura saber como as coisas se deram, Nada lhes escapará, ordinariamente. A noção da justiça é das mais apuradas que têm.

Assistimos ao julgamento de um caso de incêndio na antiga aldeia do Kindende (a 13 quilómetros da Missão do Lukula). Arderam completamente sete casas - e mais a capela local - e quanto tinham dentro.

O fogo começou numa certa casa. O dono dela foi dado por culpado, e tudo perdera também, uma vez que a mulher fazia o fogo na lareira a uma distância inferior à regulamentar, que devia ser de uns 90 centímetros aproximadamente.

O Nfumu-Nsi e seus bananga tudo tinham ido ver e medir.

Compreendem-se estas exigências e estas distâncias a que o fogo deve ser feito, uma vez que as casas são de palhas.

Veja-se como tudo está previsto!...
Portanto, visto e estudado o caso pelo Nfumu-Nsi e Bananga, o queixoso será avisado quanto ao dia do Nfunda-Nkanu. Procede-se de igual modo para com o acusado ou acusados.

Cada uma das partes tratará de arranjar o seu Nkotokuanda (ou Nvuala-Zamatu - advogados) se não quiser, por si mesmo, encarregar-se da defesa.

O tribunal é constituído pelo Nfumu-Nsi (também chamado Nfumu-Nkunzi - juiz, arbitro) que faz de juiz presidente, e por mais uns quatro Bananga, quatro adjuntos.
Um Nkotokuanda habilidoso, escolhido pelo Nfumu-Nsi, expõe o assunto. Ficará perto do presidente e de seus bananga, e de pé.

Cada uma das partes está sentada. E, sentada, fala.

A «sala» do tribunal é quase sempre o ar livre e, tanto quanto possível, debaixo de uma Nsanda (Ficus psilopoga ou Ficus religiosa). Para este fim existia quase sempre junto da casa do chefe uma destas árvores.

Também perto destes locais de Funda-Nkanu se plantava a Lilemba-Lemba (Brillantaisia alata).

Lemba, Kulemba - Apaziguar, aplacar, adoçar, acalmar.
Era para aplacar, para dar calma aos que tratam e julgam as questões, bem como os que nelas entram.

Faltando a Nsanda reúne-se o tribunal, muitas vezes, debaixo de uma muanza, alpendre público, que se encontra ao meio de quase todas as aldeias.

Outras vezes, chegam a arranjar uma cobertura com ramos de palmeira.
As partes sentam-se em semicírculo, à direita e à esquerda dos membros do tribunal, e ficam em frente uns dos outros.

Todos presentes e nos seus lugares, o Nkotokuanda do Nfumu-Nkunzi pede silêncio e apresenta a razão da assembleia e dá a palavra ao queixoso.

Nunca nenhuma destas exposições começava sem que um ou outro dos Bananga citasse um provérbio adequado.
E quando era grande «fundação» (palavra aportuguesada do termo Funda, Funda-Nkanu), a seguir aos provérbios a que todos respondiam em cora, havia dois pés de dança, rufar de tambores, etc.

Só depois a queixoso, pessoalmente ou por meio do seu Nkotokuanda, expõe a sua queixa e suas razões.

Apresenta as testemunhas e cada uma, por sua vez, vai depondo,
O Nkotokuanda do juiz resume a queixa.

É passada a palavra à defesa.
Mais provérbios (zinongo), mais pé de dança, mais tambores...
São ouvidas as testemunhas.

Cada uma das testemunhas, quer de acusação quer de defesa, costumava fazer como que um juramento a um feitiço presente, isto em tempos passados.

E era feito do modo seguinte: «Eu vou dizer tudo o que vi e ouvi. E se é mentira o que vou dizer que o feitiço (tal) me mate». E pregava um prego no feitiço como que dizendo: que me seja feito a mim isto, que eu morra, se não é verdade o que digo.

Expostos os factos e ouvidas todas as testemunhas, o Nfumu-Kunzi, seus Bananga e os Nkotokuanda de cada uma das partes, afastam-se uns 100 metros e entre eles vão estudar os prós e contras da questão, trocam impressões e avaliam da culpabilidade do acusado.

Reconhece-se a culpabilidade deste ou daquele. Acaba por se saber quem ganha e quem perde, mas ninguém poderá, por ora, divulgar nada.

São, nessa reunião à parte, estipuladas as quantias que cada uma das partes terá a pagar. E um Nkotokuanda, em nome do júri, vai avisar cada uma das partes do quantitativo respectivo. E não há que regatear. Podem acordar as duas partes no que há a pagar e terminar o assunto mais amigavelmente. Ou pagam tudo já, se trouxeram o suficiente, ou dão fiança, que e quase sempre aceite depois de marcado prazo para satisfação.

Tudo resolvido, voltam o Nfumu-Nkunzi, Bananga e Nkotokuanda aos respectivos lugares.

O Nkotokuanda do Nfumu-Nkunzi pede silêncio. Faz o resumo da questão e dos factos e anuncia que o Nfumu-Nkunzi (ou Tata-Makunzi) vai dar a sentença.

E começa ele, o Nfumu-Nkunzi, e não só ele, por mais provérbios. E voltam cânticos, dança, rufar de tambores...
Restabelecido o silêncio, o presidente, depois de uns considerandos e de uns atendendos, pronuncia a sentença.

O vencedor e seus partidários, com uma algazarra infernal, assobios, berros, etc. etc, mostram a alegria da vitória.
Há cortejo, cantigas e danças chamadas Mbanda, até casa de quem ganhou a questão. Nestas cantigas e danças aparecem verdadeiras obscenidades e injúrias contra quem perdeu a demanda,

As mulheres, então, pareciam diabólicas: propositadamente, em sinal de insulto - é J. Fernandes quem o conta-eram indecorosas, baixas, em nada se importando com o recato, antes pelo contrário.

Para os amigos e testemunhas (Mbangi - pl. Zimbangi) do vencedor há dança, comes e bebes.
Havia, e ainda há por vezes, fundações (Funda-Nkanu) que duravam um, dois e mais dias.

Nos tempos de agora bastantes assuntos são levados às nossas autoridades administrativas ou mesmo aos tribunais de comarca.

Mas não deixa de continuar a haver muitos julgamentos segundo os velhos hábitos. E quantos levam ao tribunal indígena um assunto depois de resolvido pelas nossas, autoridades?! ...

Não haja dúvida de que, a seu modo, têm uma segura noção de justiça. E, sendo muito duros e pesados nas sentenças e multas, para tirar apetites, a sentença, dada por seus tribunais, a julgam tão justa que raro apelam para outro julgamento.

Outrora sim, no uso da prova da Nkasa («Casca» - Erythrophloeum Le -Testui, A. Chev.) e da faca quente, provas aplicadas pelos feiticeiros, é que havia interesses malabaristas e negócios.

Nem sempre morria o culpado. Outras vezes nem culpado existia ou podia existir: em caso de mortes naturais mas atribuídas a inveja, desejo de vingança, maus olhados, a pessoa que se tornou Ndoki - comedor de almas.

E assim, na prova da Nkasa, morria o mais pobre, pois era a ele que se dava a dose
mortífera.

Na prova da faca quente, vista o facto pelo mesmo prisma de interesse, era condenado aquele a quem mais forte e mais imediatamente empolasse a pele. Mas é que a faca também era mais ou menos aquecida e, na perna dos sujeitos à prova, era assente mais leve ou menos levemente, ou se lhes esfregavam certas folhas que podiam ou não enfraquecer a acção da faca quente. E queimaria tanto menos quanto maior fosse a espórtula!

Mesmo assim, aceitavam estoicamente a sentença e os familiares davam graças por se verem livres de um «criminoso» que existia no seio da família.

Em Portugal em África, ano 1896, pág. 119, pode ler-se:

« ... apenas engolem o veneno - refere-se à prova da Nkasa - caem por terra espumando, lançando gritos horríveis e estorcendo-se em atrozes convulsões. A multidão não espera que acabe para se precipitar sobre ele em com - paus e facas, enchê-lo de pancadas e desfazê-lo em pedaços. Os membros ensanguentados são pendurados a uma árvore, onde são devorados pelas avos de rapina. São os parentes do réu que lhe dão a primeira pancada e fazem-no agradecendo ao Céu o tê-los livrado do monstro que ousou comer a alma de alguns de seus semelhantes!»

Nsema costumava ser o nome que se dava ao condenado à prova da Nkasa.

Battel afirma que a prova do veneno Bonda - correspondente à prova da Nkasa - era praticamente semanal e que levava muitos inocentes à morte.

Já se não aplica a prova da Nkasa nem a da Faca quente.

Mas jamais voltou a ser aplicado o veneno da Nkasa? Pública e oficialmente e em julgamentos como outrora, não. Particularmente, por vingança, por inveja, etc., etc., que o digam os naturais. São os primeiros a estar convencidos de que o veneno da Nkasa, e até outros, fazem os seus estragos.

Por que é que, ainda hoje, ninguém oferece bebida a outrém sem primeiro ser ele a beber, sobretudo tratando-se de vinho de palma?

Nos tempos que já vão longe, o condenado a uma pena capital era executado imediatamente. Se por qualquer motivo não podia ser executado logo - o que era raro - era metido no cepo, pau pesado com duas fendas, duas cavidades, para prender os pés junto ao tornozelo, sendo-lhe pregado, por cima, um mais fino.

Quase sempre lhe eram também amarradas as mãos atrás das costas.
Condenados ao cepo eram, muitas vezes os loucos furiosos. Vimos um dia um desgraçado destes numa aldeia do interior.

No tempo da escravatura, alguns condenados à morte chegaram a ser vendidos como escravos. Sempre se ganhava alguma coisa!...

Chegavam igualmente os escravos a ser vendidos para pagamento das dívidas de seus senhores. Isto entre os próprios naturais.

Caso os senhores fossem condenados à morte, sofriam-na os escravos em vez deles.
Por princípio, os homicidas eram condenados também à morte.

Para o adultério a pena era a escravatura.
O castigo para o furto: para furto leve, pena, proporcionada; ou o corte de um dedo ou até da mão para furto mais grave.

Manhema, aos ladrões apanhados à terceira vez, obrigava-os a abrir a própria sepultura. Tinham de dançar em volta da cova durante toda a noite e, de manhãzinha, eram enterrados vivos. (O presidente Bokassa, do Bangui, não acabou por adoptar ultimamente as velhas medidas antigas contra os ladrões?

Passou a adoptar o seguinte: para o primeiro roubo, uma orelha cortada; para o segundo, outra orelha cortado; terceiro roubo, amputação da mão direita; para o quarto roubo, a execução, pura e simples, em praça pública.)

Para golpes graves, o autor podia ser feito escravo, ainda que pudesse fazer-se substituir por um escravo seu.

Não havia, nunca houve e nem há prisão celular.

Condenados à morte, condenados à escravidão, condenados ao corte de dedos ou mão, condenados a pesadas multas...
Mas nada de prisão. O cepo era um remedeio, um compasso de espera.

Nos tempos de hoje, nos tribunais indígenas, as penas resumem-se em multas mais ou menos - mas muito mais do que menos - pesadas. Os chefes e seus bananga - que ainda hoje existem! - não deixam de se governar muitíssimo bem.

E há tanto segredo ainda por se desvendar neste capítulo!

Tantos que desejariam falar e que temem a vingança... mesmo através da nkasa...
Mas as falhas que possam existir, de modo algum tiram o valor aos seus belos princípios de justiça, a saber:

- Todos têm direito a ela, como o filho do antílope ngulungu deve ter o mesmo direito de andar à solta, sem ser apanhado e morto, como o filho do leopardo.

- Aplicada a todos, como peixe-serra que não poupa os peixes que se lhe colocam na frente.

- Para ser perfeita, ouvir as duas partes como o homem para ter perfeita audição ouvirá pelas duas orelhas.

- Não pode olhar a, considerações, como o tubarão que não poupa os próprios filhos.

- Em assuntos de justiça não se olha a pessoas.

- Justiça é justiça, doía a quem doer, mesmo que seja a mulher do curandeiro Lemba ou o Nfumu-Nsi.

- A cada um o que lhe pertence. Lá por que a galinha tem dono, não se lhe rouba o grilo que apanhou.

O MAL

Sem motivo, nunca tem justificação: não se bate mesmo num cão, sem haver motivo que o justifique.

- Que se ganha com fazer o mal? Fazendo feitiço para matar o cão, que se pretende, que bem daí pode advir?

- Deixa sempre traços o mal que se faz: é como cobra que deixa os rastos de sua passagem ou o «safú» que marca os lábios de quem o come.

- Nem sempre é irreparável: pode ser com o meretriz que leva os anéis mas não os dedos.

- De dois males escolhe-se o menor: o macaco ferido não sobe para as árvores.

- Não se deve pagar o bem com o mal: não se cortam as raízes à árvore que nos dá sombra.

- Há pessoas que, longe de fazerem o bem, fazem o mal: são como grilos nas redes que não consertam os buracos, antes os alargam.

E desta forma que as mulheres Basundi levam a agua para casa
 

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