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CAPITULO XXII

VESTUÁRIO - ADORNOS - PENTEADOS - TATUAGEM






Em tempos eram usados os panos Lubongo, como sabemos.
Conforme a dignidade das pessoas, assim eram esses panos: maiores ou menores, com mais ou menos ornatos.
Havia-os só próprios para o Rei. E destes só ele fazia oferta a quem muito bem desejasse.
Chegavam a comprar-se os panos em troca de escravos e de marfim.
Uma grande parte dos habitantes contentava-se com um pequeno pano.
O vestir mais decente e mais comum, para as mulheres, passou a ser, depois da importação de tecidos da Europa, uma peça de algodão com que cobriam os ombros e uma outra que enrolavam a volta da cinta, Ainda hoje é esta a regra geral mas com lindos panos estampados e garridos.

Os homens acabaram com o seu pano próprio: de zuarte (Kimbundi - pl. Bimdundi). Desde tempos muito arredados que usam casaco, e até casaca, de origem europeia.

Os grandes senhores não podiam dispensar o uso de uma pele à cinta, à guisa de avental. E a ordem de dignidade impunha a espécie de pele: de animal tanto mais bravo e feroz, quanto maior é a autoridade - do que a usa-leopardo (ngo), sinzi
(grande gato selvagem), etc., todos, ou quase, da família dos felinos.

Ainda hoje, nas reuniões de clã, festas de Mpolo e congéneres, os grandes chefes velhotes se apresentam de pano de zuarte (mesmo por cima das calças) e com a pele própria da sua dignidade.

Os tidos ainda por Chefes de clã, quando recebem alguém para resolução de questões e onde têm de afirmar a sua autoridade, apresentam-se sempre de pano, tanto quanto possível de zuarte.

Na mulher, o pano que fazia de saia teria de passar muito abaixo do joelho. Debaixo deste usavam sempre um outro mais pequeno.

Não havia qualquer relutância - nem era tido por falta de pudor - o andar de tronco nu, mesmo as mulheres. Ainda em 1941, no interior, era uso correntíssimo entre as raparigas e mulheres de qualquer idade. Mais se notava em trabalho de campo.

A noção de recato e de pudor estava simplesmente ligada aos órgãos sexuais e às relações de vida matrimonial. Dai o cuidado, sempre atento e rigoroso, em resguardarem bem essas partes. Por isso, até nos rios, sempre que se passa (ainda hoje) um rio, por ponte ou a vau, quem vai a passar deverá avisar, com voz suficientemente forte e mais do que uma vez, dizendo: Mazi - água. É como quem diz: «se alguém está na água a banhar-se que se esconda que vai gente a passar.» Não avisando, estando lá alguém, a pessoa apanhada no banho pode levar o faltoso a tribunal por falta a uma regra elementar e grave de civismo.

O homem, em trabalho, andava (e ainda anda com frequência) de ordinário de tronco nu.

As mulheres, de tronco nu e nos tempos de hoje, cremos que somente muito no interior e entre elas. Se notam qualquer pessoa de fora, sobretudo europeu ou mesmo naturais já de certa apresentação, tratam de se cobrir decentemente.

Na época actual, o homem Cabinda - de todo o País - veste-se, na sua grande maioria, à europeia. Veste bem e até com elegância, por vezes.

A mulher não deixou ainda o uso do pano a fazer de saia; conserva a blusa, mais ou menos do tipo quimono e de largos decotes; veste ainda o largo pano-manto que passa pelas costas e traça ao ombro. A mulher Cabinda é, sem dúvida, neste trajar e pelo gosto na escolha das peças estampadas - procuradas até pelas europeias, mesmo de outras cidades da Província - ora com figuras de pessoas de alguma celebridade, quer na Europa, África ou mesmo do seu meio clánico, ora com desenhos simbólicos, que lhes lembram leis e costumes, a mulher Cabinda é, em terras de África (e mesmo arredores), a que melhor se veste e mais limpa se apresenta. Não tomasse também banho todos os dias eles e elas - e, não raro, mais do que uma vez ao dia!...

Mas não deixa de ser interessante o vê-la copiar perfeitamente a moda das raparigas e senhoras europeias, mesmo as mais «arriscadas», como a da mini-saia!

Já há muita mulher Cabinda que veste, pura e simplesmente, à europeia. E com muito gosto e graça o fazem. E fica-lhes bem.

Temos, a par, de reconhecer que o Cabinda - Bauoio - e a maioria dos povos do País são também gente de feições finas, lábios muito mais delgados e nariz mais afilado do que as outras raças africanas, As mulheres, por vezes, apresentam traços delicadíssimos e notam-se mestiças de beleza inconfundível.

Não admira, pois, que homens e mulheres procurem vestir-se com o requinte que lhes é possível.
 
 


Fig. C 51 - Veste bem a mulher Cabinda?

QUANTO A ORNATOS

 Os Reis e grandes senhores usavam ao pescoço espécie de colares com dentes de felinos.
As mulheres usavam com frequência colares de conchas, de Nkola (Achatina Schweinfurthi v. Martens), de Nzimbu (uma Cypraea), de marfim e braceletes de cobre, ferro (Nlunga) e, nas pernas, as grandes argolas de cobre, ferro e até de chumbo (Mabula-Mbondo).

Estas grandes argolas eram oferecidas pelo marido à mulher em sinal da submissão que esta lhe deve.

O uso de missangas à cinta, nas mulheres, generalizou-se em substituição do fio ou cordão que, outrora, cingiam. Ainda hoje, na maioria, cingem esses fios de missanga, e até mais do que um, por baixo dos panos.
Foi moda usar à cinta muitos fios de missanga, que revestiam de pano, chegando a ter espessura superior a 4 e 6 centímetros de diâmetro. Era moda, kitoko como dizem em sua língua.
Desapareceram todas as argolas e colares antigos e à moda antiga. No interior, ainda se conservam restos das coisas do passado. Estão presas a elas quase supersticiosamente.

A maioria adoptou simplesmente o que, conforme as passes, pode adquirir da indústria europeia: relógios de pulso, cordões e fios de oiro e prata, colares de todos os tamanhos e feitios, missangas de todas as cores...

Houve uma evolução muito rápida no que respeita à vida pública e social em contacto com o europeu. Entre eles e só para eles conservam ainda alguns de seus usos e costumes.

Mas nem sempre os deixam transparecer para o exterior.

Já há o Cabinda com seu carro e frigorífico; são às muitas centenas as motorizadas; milhares com bicicletas; maior número ainda com rádios.

PENTEADOS

Outrora - como se relata em Prevost - em terras do Reino de Loango e Kakongo (um pouco menos no Reino de Ngoyo) o corte do cabelo era proporcionado ao cargo e posição de cada um.

O da Rainha era cortado em forma de coroa, com pequenos tufos distribuídos pelo meio. A maior parte das pessoas de distinção, como diz Battel, era «coroada como os monges na europa».
( Battel, in Prevost, op. cit., pág. 236 do Vol. VI.)

Outros, contudo, tinham os cabelos penteados em ponta, que lhes descia na testa e caía na nuca. Dos lados eram cortados muito rente.

Este uso do corte muito rente por cima das fontes ainda o viemos encontrar nas terras do interior.

Hoje todo o homem Cabinda seque, mais ou menos, o corte de cabelo que vê usar no europeu e tanto quanto lhe permite a sua qualidade de cabelo.

Mantêm já os seus cabeleireiros. Mas na maioria das aldeias cortam o cabelo uns aos outros. Trabalho entre amigos. Aparece uma ou outra máquina. Mas uma tesoura, uma lâmina ou uma navalha de barba, são mais do que instrumentos suficientes para um corte decente de cabelo.

A mulher Cabinda, a rapariga casadoira e a mulher até à meia idade, pelo menos, como a mulher de todo o mundo, tem brio e até vaidade em se apresentar com um bom penteado.

As fotografias falam mais e muito melhor do que tudo o que se possa dizer a este respeito.
 
 


Figs. P 52 - Penteado Basundi
 
 


Fig. - P 61 - Penteado simples a condizer com a dona...

Regra geral combinam entre si, duas ou três amigas, e fazem o penteado umas às outras. Levam tempo, mesmo muitíssimo tempo.

Com pentes bem fortes, quase sempre os de madeira ou de banzas (pequenas nervuras dos ramos de palmeira, juntas e amarradas em forma de pente), com uma meia dúzia de dentes de 5, 8 ou mais centímetros de comprimento, feitos pelos naturais,, começam por desvencilhar os cabelos. Exige tacto e mesmo certa força de quem penteia e não pouca coragem e paciência da parte de quem está a ser penteada. Facilitavam a operação usando um pouco de óleo fino de palma ou de coconote, preparado especialmente para este fim.
 
 

Figs. P 50 - Pente feito de banzas (0,19X0,08)


Fig. - P 51 - Pente de madeira (0,30X0,07)

Hoje procuram produtos europeus.
A forma, feitio, número de tranças, etc. etc. é de combinação mútua. Quase sempre as que se ajudam entre si, escolhem o mesmo tipo de penteado.

A repartição do cabelo é feita com a máxima simetria.
Mas não entrançam o cabelo. É praticamente impossível.
A «trança» é conseguida pelo enrolar de linha preta, muito meticulosamente, à volta do cabelo que faz parte de cada campo repartido. Cada uma destas «tranças» é que é, por vezes, entrelaçada, entrançada, nas outras.

Este sistema de penteado conserva-se muito tempo.
Outras preferem pentear-se, puxando o cabelo o mais que podem, deixando-o solto, levantado e em «poupa».

Mas também já sabem usar a laca...

O aspecto gracioso que se pode colher de certos penteados está bem patente em algumas das nossas fotografias.

E compram cabeleiras de 500, 600 e mais escudos cada uma; apresentam-se com altos turbantes; à volta de seus penteados enleiam habilmente lenços garridos ou partes de peças de pano sarapintado ou com desenhos vistosos.

Fig. C 52 - E mais facil armar um turbante destes do que fazer um penteado...








TATUAGEM (Nsamba - pl. Zinsamba)

Em Cabinda só se encontra tatuagem entre os Basundi e Baiombe.

Tatua-se sobretudo o sexo feminino. No sexo masculino também existe a tatuagem, especialmente entre os Baiombe, mas feita por processo diferente do usado, comummente, na mulher. Esta sujeita à tatuagem o peito, a parte superior; as costas, por vezes, desde a base do pescoço à cinta; o alto e baixo ventre; os braços, parte exterior e mais o braço direito do que o esquerdo.
Aparece ainda com certo género de tatuagem, por vezes, a testa e a face.
 

COMO SE PROCEDE
 
 

a - No peito, braços e costas

É a rapariga ainda jovem, de 14, 16 a 18 anos, antes do casamento, que se sujeita a ser tatuada. Não nos consta que a mulher casada e adulta se tatue, Pode, sim, no caso de doença, quando se aconselha certa sangria, usar a Libinda. Mas nada mais.

Não é qualquer um ou qualquer uma que executa a tatuagem.

Há técnicos, operadores, que tanto podem ser homens como mulheres, ainda que seja mais frequente ser um homem.

O operador, ordinariamente, introduz, por baixo da pele, uma agulha e depois com uma faca muito bem afiada vai cortando conforme o desenho desejado e marcado antecipadamente.

O desenho de losangos e a imitação da carcaça da tartaruga são os mais comuns.

Muitos outros cortam directamente sobre a pele sem meterem agulha alguma. Os golpes chegam a ser de um e mais milímetros.

Conforme esses golpes, mais ou menos profundos, e a natureza e constituição dos corpos das pacientes ficará, depois, a tatuagem mais ou menos viva, mais ou menos saliente.
Segundo a tatuagem desejada podem gastar dias na operação.

Conhecemos uma tatuada que levou três dias nisso: um dia para a tatuagem do peito e baixo ventre; outro, para as costas; um outro, para os braços.

A jovem aceita a operação com verdadeiro estoicismo, sem uma queixa e sem choro, tanto ao ser golpeada como depois a ardência prolongada, provocada pelas esfregadelas com pó de carvão ou até com a simples mafuta, óleo de palma.

A esta tatuagem a golpes, passando por eles pó de carvão bem pisado, é que se dá o nome de Nsamba.
 
 


Figs. P 62 & P 63 - Mulher Basundi tatuada , a mesma de costas moda kitiko.
 
 


Fig. P 64 - Duas jovens com Nsamba

Em «Mutilações Étnicas dos Manjacos» por Artur Martins Meireles - Bissau/1960 encontramos as seguintes notas sobre a tatuagem, e que podem justamente ser aplicadas no nosso caso.
«Verifica-se desde os tempos mais recuados o costume de enfeitar o corpo.

Entre os africanos está esta prática bastante generalizada, muito embora os contactos com outras civilizações venham provocando, principalmente desde o inicio do actual século, uma tendência lenta para o seu desaparecimento.

A tatuagem entre os manjacos, baseia-se no aproveitamento da predisposição especial dos indivíduos da raça negra para a constituição das formações fibrosas (e portanto de origem mesodérmica) conhecidas por queloides.

A semelhança do, que sucede com muitos outros povos não evoluídos o conhecimento desta reacção cutânea, derivada de incisões ou de queimaduras térmicas, foi utilizado para se obter a tatuagem em relevo.

Consiste num conjunto de incisões, cuja cicatrização propositada mente se retardou, para que se formassem queloides que atingem tanto maior relevo quanto mais tempo demorar a cicatrização.

O conjunto das cicatrizes em relevo forma a tatuagem propriamente dita e o seu aspecto é o de sua combinação geométrica, que não representa qualquer espécie de ideologia.

Prolifera a turnefacção queloide. entre os bordos das feridas incisas e nova camada de epiderme lisa, lustrosa e tensa, cobre-a. Quanto mais tempo demora a cicatrização e quanto mais fundas foram às incisões, maior é o relevo atingido, como se referiu já.

«O professor Forgue afirma que o tumor queloide, uma vez terminado o seu crescimento, fica estacionário e não se reabsorve.

No entanto, deve dizer-se que o relevo das tatuagens dos manjacos, segundo se tem observado, com o correr dos anos vai diminuindo, chegando a desaparecer, no geral depois dos 55/60 anos, ficando apenas as marcas das cicatrizes.»

De imenso, valor são estas afirmações e conclusões do autor, de tanto mais mérito e dignas de aceitação por saírem de quem é médico, e que se aplicam no todo à tatuagem Nsamba - entre os nossos Basundi - e Baiombe,

Temos assim:

- O uso da tatuagem vai decrescendo.

- A forma de queloides, proveniente de incisões e ate de queimaduras térmicas, é uma predisposição da natureza do indivíduo da raça negra.

- O relevo da tatuagem é tanto maior quanto mais funda for a incisão e quanto mais se demorou a sua cicatrização.

- O relevo das tatuagens, segundo o autor e contrariando o Prof. Forgue, pode ir diminuindo entre os manjacos. Não só entre eles, acrescentamos nós. O mesmo se pode constatar entre os nossos Basundi e Baiombe. Duas fotografias que apresentamos da mesma pessoa, tiradas a intervalo de uns 22/25 anos, dão razão ao ilustre autor das «Mutilações Étnicas dos Manjacos».
 
 


Figs. P 66 & P 67 - Tatuada em jovem e 25 anos depois, repare-se como a tatuagem foi desaparecendo

Voltando aos nossos Basundi e Baiombe.

A Nsamba ainda pode ser executada por simples incisões, aqui e além, a deixar no corpo e com certa disposição, uma espécie de botões.

Homens e mulheres e, então, sem atender a tempo e idade, chegam a mandar executar a tatuagem Libinda - pl. Mabinda, só aplicada por motivo de doença.

É que, quando adoecem e estão com febres renitentes, têm (ou tinham) por costume sangrar-se. Com pequenos golpes mas numerosos, no peito, costas e mesmo na face ou noutros lugares doridos, fazem a sangria. Para se não golpearem «sem gosto» aproveitam muitas vezes a ocasião para mandarem dar uns bons golpes com certa simetria e feitio.

A este género de tatuagem se chama Libinda.

B - A típica tatuagem na face ou testa.

Chama-se-lhe comummente Mindindi por ser feita e marcada com a seiva da árvore Ntindi.

É o sistema mais usado pelos homens, quer na face e testa, quer no antebraço e pulsos.

A Mindidi também é praticada pelas mulheres, mas só na testa e face e muito mais entre as Baiombe do que entre as Basundi.

Para se executar a Mindindi empregam-se 4, 5 ou mais agulhas com os bicos bem juntos e em linha, e vão-se espetando até fazerem sangue. Passa-se pelas espetadelas, a que se deu o desenho ou traços desejados (quase sempre círculos ou semicírculos), com a seiva de Ntindi que, sendo cáustica e corante, acaba por dar e deixar ficar, para sempre, nesses lugares traços de azul muito escuro ou mesmo quase pretos.

Muitos outros passam simplesmente essa seiva, servindo-se de um pausito bem afiado, três ou quatro vezes por onde querem. A seiva queima a pele, que virá a sair nesses lugares, deixando os traços de sua passagem.

A tatuagem à base de taninos também se chama TIRO.

Na testa e na face nem sempre há aquela simetria, e até delicadeza de desenho e corte, que se encontra na Nsamba propriamente dita. Chega a ter-se a impressão de que se cortaram por cortar, à toa.

A tatuagem no rosto e face, com pequenos golpes e com o fim de coque teria - que não por doença - toma o nome de Lipopo - pl. Mapopo. Pode dar-se-lhe um certo colorido arroxeado esfregando nos golpes pó de carvão.
 
 


Fig. P 65 - Mulher iombi com tatuagem Mapopo, na face, na testa e Mabinda nos braços

Porque se tatuam?

A tatuagem é um luxo inspirado pelo desejo de ser coquete.

«Le tatuage est un luxe inspiré par le désir d'être thoko, coquet», escreve o P. Bittremieux.

Martins de Meireles, já citado atrás, começa por dizer, e bem: «Verifica-se desde os tempos mais recuados o costume de enfeitar o corpo humano».
Chega a perguntar se as tatuagens não seriam «selvajarias».

Em resposta lembra as «selvajarias» que sofrem as senhoras da América e da Europa nos institutos de beleza... «Que concluir disto? Que seja qual for a latitude, as mulheres (e alguns homens) se sujeitam a sofrimentos físicos com a finalidade de embelezarem o corpo».

Mesquitela Lima, escreve: «A mulher é sempre tatuada em todo o corpo e cara e prima-se por ter os melhores motivos no ventre, como determinante de atracção e excitação sexual. As tatuagens que ela possui' na barriga tem simplesmente um fim erótico...»

O itálico é nosso.

Achamos muitíssimo exagerada a afirmação feita por Mesquitela Lima de que a tatuagem no ventre é «como determinante de atracção e excitação sexual» e que «tem simplesmente um fim erótico»... mesmo que se refira somente às mulheres da Lunda.

Atribuir conscientemente à tatuagem, feita em que lugar for do corpo, fins eróticos ou de atracção e excitação sexual não deve passar de pura fantasia de autor!

Aliás, Mesquitela Lima acaba por desfazer as suas próprias afirmações anteriores com a «verdade que sai da boca dos inocentes». E escreve: É vulgar, quando se pergunta a um nativo da Lunda por que se deixa tatuar, ouvi-lo dizer: «Muata, é para ficar mais bonito».

E ainda: «Em parte, hoje em dia, a tatuagem exerce uma função estética predominante ... »

Se procuramos saber quais as raparigas, especialmente, da raça negra que se tatuam, vamos cair, quase necessariamente, nas regiões de maior calor e onde a mulher se vestia (repetimos, se vestia) mais rudimentarmente. Da cinta para cima andavam nuas, É na parte visível do corpo que se tatuam.

Em contacto «com outras civilizações», frisa muito bem o Dr. Martins Meireles, vai desaparecendo a tatuagem. Porquê? Porque se vão vestindo. E a preta à medida que se veste, que tapa o corpo, vai deixando a tatuagem. O seu coquetismo, agora, mostrá-lo-á pelo modo de se cobrir, pelos panos ou vestidos que usa. Nada de atracção sexual, nada de erotismos. São menos mulheres agora do que eram antes?

Não o cremos, antes pelo contrário.

E já não encontramos em 70/71 número de tatuadas equivalente ao de 1941/48.

Hoje já quase se não encontra uma jovem, dos 15 aos 18 anos, tatuada. Para quê o tatuar-se, golpear-se, se seu corpo anda coberto e o seu noivo ou marido dispensa perfeitamente a tatuagem e mais prefere uma esposa de corpo liso do que o de uma todo marcado!...

Fig. P 68 - Agora e muito dificil encontrar uma jovem tatuada

Outrora, sim, quando se andava quase sempre de tronco nu, viam na tatuagem, maior, mais vasta ou menos vasta, - um certo adorno do corpo mas, mais ainda, uma forte a válida razão - que não de fim erótico - para atrair os rapazes.

É que a donzela pela sua tatuagem mostrava a sua capacidade e poder de sofrimento. quanto mais tatuada ela fosse, mais demonstrava ser capaz de aquentar sofrimentos, dores e trabalhos.

Não nos esqueçamos que a rapariga, já no acto de ser tatuada, deve sofrer os golpes e tratamentos sem choro nem gemidos.

A tatuagem, pois, além de moda coquete - kitoko - teria de ser interpretada no sentido já exposto: capacidade em suportar as dores e os trabalhos.

Uma mulher muito tatuada dava a maior garantia de vir a ser uma esposa generosa e de trabalho e uma mãe valente.

Temos que acrescentar que entre os Basundi e Baiombe se dava à tatuagem um certo sentido ideográfico. Certos sinais e certos losangos indicavam se a tatuada era Basundi ou Baiombe.
Alguns desenhos tinham o seu simbolismo e significação.
Assim, o desenho simbolizando o Nkuvu (tartaruga, e era o mais comum) era para indicar, marcado a golpes dolorosos na carne, que a mulher, a esposa, devia ser como que a «escrava» do seu homem e que devia andar sempre ligada a ele, que lhe devia ser sempre fiel como tartaruga à sua carcaça.

Nkuvu uinátina muanz'andi.
A tartaruga leva consigo o seu tecto.

E como, para sua defesa, a tartaruga se esconde debaixo da carcaça, assim a mulher se deve refugiar à sombra de seu marido.

OS DENTES

Os Basundi e Baiombe, de ambos os sexos, usam limar, em forma de serra ou semelhante, os incisivos superiores.
Fazem isso com simples lima e faca.
 
 

P-53 - Penteado Baiombi

P 54 - Penteado de uma jovem do Caio

P55 - Novo e raro tipo de penteado

P 56 & P57 - Duas jovens com penteados mais comuns

P 58 - O fazer "render" o cabelo

P59 - Parece touca, mas nao e...

P60 - Que dizer deste penteado? E quantas horas tera levado.
 
 
 

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