Cabinda à margem de Angola

Do lado de fora de Angola, a norte, entre os dois Congos, Cabinda  é responsável por 90 por cento do Produto Interno Bruto angolano. Além de petróleo, extraído na teia de plataformas junto à costa, pouco mais brota em Cabinda. Nesta terra, cuja população não esconde um desejo irreprimível de independência, vivem algumas dezenas de portugueses, alguns dos quais há várias décadas.

Reportagem de Graça Rosendo fotografias de Luiz Carvalho, enviados a Republica de Cabinda

 
Vista da cidade de Cabinda, com a Sé Maior, da Igreja Católica, ao fundo
 

Crianças durante uma aula improvisada numa das ruas da cidade

 
 
 

 
Independência não assusta portugueses

Em terra de «fiotes», os portugueses são pouco mais de uma centena, a maioria dos quais estão apenas de passagem, enquanto duram as obras a cargo de empresas portuguesas. Os outros, os que lá vivem em permanência, são cerca de 20. Chegados, nalguns casos, ainda durante os tempos da guerra colonial, por lá casaram e por lá ficaram, estabelecendo famílias e negócios. Muitos sentem-se tão cabindenses como os que lá nasceram e a luta dos independentistas não os amedronta

António Videira com os filhos
 
Bído, recebe-nos sentado num «maple» de tecido quente, em frente à televisão e de comando na mão.

Dentro de alguns minutos será transmitida a entrevista de Mário Soares a Judite de Sousa, pelo canal RTP Internacional e pelo menos uma das pessoas daquela casa não quer perder aquilo que vai dizer sobre Cabinda um dos responsáveis pelo processo de descolonização dos antigos territórios portugueses em África.

Enquanto faz as despesas da conversa, António Videira espreita pelo canto do olho para verificar se o filho está devidamente atento às imagens da televisão. E sempre que o rapaz se cansa de esperar pela hora da entrevista e muda de canal, repreende-o provavelmente no mesmo tom de voz com que, em tempos, chamou «fiotes» aos seus empregados e os mandou trabalhar.


José Torres com um dos seus empregados

Na sala, uma enorme mesa rodeada de cadeiras é sempre ocupada apenas por uma pessoa. O sr. Videira come sempre sozinho, a não ser quando um dos netos mais pequenos, ou o filho «caçula» de cinco anos, resolve vir fazer-lhe companhia. São as únicas pessoas da casa que o velho português deixa sentar a seu lado. «Eles comem comida diferente da minha. Eu até arranjei uma cozinha 'fiote' para eles cozinharem as coisas deles!» - diz.

Enquanto conta a sua história de mais de 40 anos de África, começados na tropa e mantidos até hoje, Videira estende os braços para mostrar as muitas divisões da casa, que ele próprio desenhou, para lá caber toda a gente da família, mas que não tem mais do que o essencial: camas para dormir e algumas mesas de cabeceira pequenas. Nem armários para a roupa nem tapetes no chão.

O seu quarto é o maior e o mais bem equipado, mas já tem um enorme buraco numa das paredes, preparado para fazer uma ligação com o do lado, para onde vai ter de se mudar o «caçula» de cinco anos. «Já está na altura de ele deixar de dormir aqui comigo…», sussurra. Depois, com um surpreendente orgulho, mostra a «qualidade» das casas de banho de cada quarto, por terem todas uma banheira; as pequenas cozinhas pertencentes uma a cada casal da família, por estarem equipadas com fogão e frigorífico; a extensão da despensa, demasiado vazia para a quantidade diária de comida que ali se consome.


Acácio Alves, em casa, com a mulher

Afinal, António Videira tem nove filhos, três genros e quatro netos, todos debaixo do mesmo tecto. Vive com a mulher que conheceu há 36 anos mas, numa vila suficientemente distante da cidade, tem outra casa com outra família - duas filhas e uma mulher que, antes de se deitar na sua cama, começou por cozinhar para si há 44 anos e que agora já está «muito velha» para ele a procurar com a frequência de antigamente.

Videira tem quase tudo para se confundir com quem ali nasceu. Distingue-o a cor branca da pele e a falta de pudor quando trata Luísa, a sua mulher, cabinda, por «fiote» - o nome que os colonos brancos deram aos «pretos» ali na região. Distingue-o também a camisa creme e as calças cinzentas já roçadas, de corte antigo, que não combinam com o ambiente africano. E alguns hábitos que nem mesmo as doenças impedem de quebrar. Todas as tardes, quando a temperatura já deixa, reúne-se para uma cerveja com outros portugueses, quase todos residentes, na Barraca do Espanhol, um casebre de madeira, num lugar chamado Feira Popular, cheio de outras barracas iguais onde se come e bebe mas onde não há água canalizada nem esgotos.

Ali, os temas da conversa nunca mudam, a não ser quando a FLEC (Frente de Libertação do Enclave de Cabinda) rapta algum compatriota. No grupo, cada um tem o seu negócio - de transporte de madeiras, de venda de produtos alimentares, de fabrico de pão.


Acácio Alves na padaria, com alguns dos seus trabalhadores

António Videira é um dos cerca de 20 portugueses que vivem em Cabinda. Cruza-se diariamente com muitos dos mais de cem compatriotas que estão temporariamente naquela terra para trabalhar nas obras das empresas portuguesas, e quase nunca se mistura. Parece, tal como os outros residentes, ser mais cabindense do que português e, talvez por isso, se mantenha tranquilo quando se fala da insegurança, do risco de sair para a mata sozinho ou de eventuais tempos de mudança política em Cabinda. Quando se pergunta a qualquer destes portugueses porque se fala tanto em independência no enclave, reservam-se um pouco mais mas não recusam responder: «Quando aqui cheguei, isto não era Angola, era Cabinda.»

José Torres também já está reformado, que é como quem diz já não guia as suas camionetas até à mata do Maiombe, para as encher de madeira e as trazer até à cidade. Agora, vigia as viagens dos seus homens, controla os carregamentos e sonha com o dia em que conseguirá vender a enorme casa, construída há poucos anos nos arredores de Cabinda, e o extenso terreno que a rodeia. Já é antiga a inscrição de tinta a dizer «vende-se» no portão alto da sua propriedade, mas, até agora, não recebeu uma única proposta «interessante». O seu objectivo é «ter» o menos possível em bens e o mais possível em dinheiro, provavelmente depositado em Portugal, longe das confusões que, mais tarde ou mais cedo, acabarão por chegar a Cabinda. «Esta terra é deles e, sobre isso, não há nada a fazer. Nós podemos aqui viver uma vida inteira mas nunca seremos donos de nada aqui.» A voz baixa, arrastada, não deixa ver nada mais a não ser uma espécie de arrependimento, há muito conformado, com a vida escolhida em Cabinda.

José Torres também chegou com a tropa e, em pouco tempo, conseguiu um emprego com um ordenado dez vezes superior ao que ganharia em Portugal se tivesse voltado, para ser camponês como os pais. A sua terra, em Esposende, vivia, no final dos anos 50, a mesma miséria rural de quase todo o país salazarista. E Cabinda, onde chegou inserido no primeiro contingente militar português estacionado na antiga colónia, foi a oportunidade de evitar uma vida inteira agarrado à enxada.


Depois de vários empregos, como motorista e como operário numa plataforma de petróleo, conseguiu estabelecer-se por conta própria. Viajou para a mata durante anos seguidos, dormiu por lá noites que já não têm conta, sempre sem medo da guerra das tropas angolanas contra a UNITA, das emboscadas dos independentistas ou dos assaltos dos mais pobres. Isto apesar de lhe terem queimado três camiões e roubado duas carrinhas e de saber que ao seu amigo Videira, em tempos que já lá vão, «alguém» atirou quatro granadas para dentro de casa, que iam matando toda a família.

Como o sr. Videira e todos os outros portugueses residentes, José Torres chegou novo, habituou-se depressa ao calor e à humidade da terra, enriqueceu depressa mas à custa de trabalho duro, arranjou mulher negra e constituiu família. Como os seus compatriotas que já vivem em África há 30 e 40 anos, resistiu às mudanças políticas tentando nunca se envolver, a não ser, talvez, com dinheiro discreto e muita paciência. Hoje, sussurra entre dentes que, se voltasse atrás, provavelmente não ficaria em África. Percebe-se, na expressão do olhar, que receia pelo futuro do filho, porque «África é negra e ele é cabrito» e porque, apesar de haver muito trabalho, não há quem o pague. «E isso é o mesmo que dizer que Cabinda acabou», resume.

Acácio Alves já só tem a sua padaria a trabalhar a 25%. A miséria do povo continua a crescer, por isso «o pessoal» já não tem dinheiro nem sequer para comprar o pão que os seus 24 empregados fabricam. Entrar na padaria do sr. Alves em Cabinda é recuar no tempo uns 30 anos. Mas ele esclarece: «Tinha uma, toda moderna e bem equipada em Belize, mas aquilo, por lá, acabou.»

Cinco colegas dos portugueses raptados pela FLEC/Renovada, em frente do estaleiro da empresa Soares da Costa

Foi dos poucos portugueses que não fugiu de Cabinda com a descolonização, tendo ficado a tomar conta das casas e dos comércios de antigos patrões. Depois, nos anos 90, quando já estava instalado no Belize - uma pequena cidade a norte do enclave e que fica mesmo no interior da selva do Maiombe, que serve de esconderijo aos guerrilheiros -, também não fugiu da guerra entre as tropas do MPLA e os homens de Savimbi. Ficou com outros dois portugueses, que hoje ainda vivem em Belize, apesar de por lá o negócio estar praticamente morto à custa das sucessivas guerras e da fuga das populações para a cidade de Cabinda. São comerciantes, como foi Acácio Alves enquanto lá teve a sua padaria. E desse tempo recorda os quatro meses em que foi refém da UNITA, por as tropas de Savimbi terem ocupado a vila. «Vivia na minha casa e continuava a fazer pão. Mas não podíamos era sair de lá.» Depois, aponta para a sua «Quinzinha» e diz: «Ela e os filhos já estavam aqui na cidade de Cabinda e estivemos esse tempo todo separados.» A família, aliás, instalou-se num apartamento do tempo colonial, de um prédio que está tão velho e tão gasto que faz parecer um palácio qualquer barraca de bairro de lata em Lisboa.

Foram difíceis todos aqueles anos mas, reconhece, «nunca ninguém» lhe «fez mal». E, se decidiu sempre nunca fugir foi porque também nunca teve dúvidas de que esta terra e este povo são «bons». Para quê outras palavras, se uma certeza basta para justificar uma vida inteira feita de resistência?

Conhece tão bem o Maiombe como os outros portugueses residentes. E não receia atravessar as estradas da selva sempre que é preciso, porque se dá com toda a gente, de um lado e do outro da barricada, e, sobretudo, porque pensa como quase todos os cabindenses. «Esta terra é muito rica e, no entanto, mais de 80% do povo passa fome.» Todos os povos de África lutaram pela independência, acrescenta. «Porque é que Cabinda havia de ser diferente?»
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Igreja prega autonomia

Uma vontade encravada - a da independência - é o sentimento dominante entre os cabindenses, guiados pela Igreja local na luta por este anseio, reprimido há décadas por Luanda. Os cabindenses têm bilhete de identidade angolano mas dizem que não o são, sempre que saem para o sul dizem que vão a Angola e quando joga a selecção angolana de futebol manifestam-se abertamente a favor do adversário


Entrada de um salão de beleza

A frase pertence a um poeta cabo-verdiano mas pode servir de máxima…. O padre Raul Tati, vigário-geral de Cabinda, sorri quando a ouve, à mesa do jantar. É só mais uma forma de descrever a luta de muitas décadas que o seu povo vem travando pela independência e pela liberdade. E todas as formas de o dizer e de o fazer são úteis para ajudar a cumprir esse destino. Cabinda será mesmo livre um dia? «Se não tivesse esperança, não me batia por esta causa e estaria a trair a missão profética desta Igreja, de dar voz a quem não tem voz.»

Tati será, muito provavelmente, o futuro bispo de Cabinda. Mesmo sendo um conhecido e assumido defensor da independência do enclave, este padre caminha sem medo para um dia assumir maiores responsabilidades perante o seu povo. Dos padres, diz-se por lá que são os políticos da terra. E quem mais pode fazer este papel, sabendo os riscos que se corre por dizer a verdade e as mortes que já aconteceram por lutar por esta e outras causas semelhantes?

Diariamente, as missas na Missão do Espírito Santo ou na Sé da capital do enclave servem de fórum ao «anúncio da verdade», como diz Raul Tati. Sempre feitas em língua ibinda, é nos sermões que os padres da Igreja de Cabinda ensinam, educam, dão conselhos, politizam e rezam pela liberdade. «Assumimos a causa deste povo como a nossa própria causa. Seria uma traição ao povo que evangelizámos não o fazer. Dar-lhe voz é denunciar a miséria, a violação dos seus direitos, a repressão e a violência», acrescenta.

Pormenor do mercado da cidade

Quarta-feira, às seis da manhã, numa igreja apinhada de gente até à rua, o padre Jorge Congo pede aos fiéis que rezem por aqueles que foram presos por «causa da questão dos reféns». O povo acena com a cabeça, quando ele diz os nomes de três ou quatro pessoas. A seguir, todos levantam os braços e, de mãos dadas, cantam sons africanos onde se percebe o nome de Cristo e uma saudação católica, gritada com todo o fervor. Nem o calor, nem a presença reforçada de militares na região diminuem esta fé.

Neste pedaço de África, como em muitos outros cantos do continente negro, a Igreja Católica transformou-se numa das tribunas da luta política, mesmo quando esta luta implica raptar inocentes e entrar numa guerra de morte. Em Cabinda, três portugueses estão reféns de um dos movimentos independentistas há quase um ano. Outros cinco foram raptados há cerca de um mês pela outra FLEC (Frente de Libertação do Enclave de Cabinda). E ninguém, entre o povo cabinda, é capaz de dizer que estes foram actos ignóbeis, brutais, que ajudam mais a condenar do que a libertar. «São um mal necessário», confessam todos, até alguns dos responsáveis da Igreja Católica local. «Mesmo fazendo sofrer vítimas inocentes, os raptos são uma forma de mostrar ao mundo a miséria deste povo», afirma Simão Congo, herdeiro de um nobre cabinda e regedor do lugar de Simulambuco, onde, em 1885, foi assinado um tratado de protecção com Portugal.

É verdade que a esmagadora maioria da população em Cabinda é a favor da independência, por muito que as autoridades angolanas o neguem. Nas ruas, nos lugares públicos, nas conversas privadas, dos mais ignorantes aos mais informados, os cabindas desejam a liberdade como quem quer matar a fome. Sempre que saem para o sul, dizem que vão a Angola. E, na maior parte das vezes, preferem subir até Ponta Negra, no Congo, para se abastecer, do que descer a Angola para fazer compras ou tratar-se. Mesmo que isso implique fazer quatro e cinco horas de viagem de carro por uma estrada esburacada do tempo colonial que nunca mais ninguém arranjou. Quando joga a selecção angolana, torcem abertamente pelo adversário. E têm bilhete de identidade angolano. «Mas não nos sentimos angolanos, não somos angolanos», afirma Tati.


Vendedor de pão. O negócio está reduzido a 25%

Dizem tudo isto tão abertamente que nem parece viverem debaixo de um regime que nada tem de democrático. E, de facto, para as populações do Huambo ou do Bié, que sentiram da forma mais dramática a guerra entre o MPLA e a UNITA, Cabinda nunca viveu em guerra nem conheceu os efeitos da destruição. Apesar disso, não há um cabinda que não tenha na família um caso de perseguição política, de desaparecimento, de atentado e até de prisão. O pai de Raul Tati foi preso pela PIDE e, depois, pelas autoridades angolanas, por ser da FLEC. Vários padres foram obrigados a um exílio forçado no ex-Zaire, depois da «ocupação» do enclave, em 1975, como a classificam, pelas tropas de Luanda. Um português residente lembra a emboscada de que foi alvo por tropas das Forças Angolanas quando estava numa caçada com alguns amigos cabindas, no início dos anos 80. E a sua mulher, cabinda, acrescenta logo que o pai foi preso e levado para as prisões do Sul, onde acabou por morrer. Como ele, muitos outros cabindas, inclusive autoridades tradicionais, foram presos e desapareceram por serem independentistas. O próprio Barão de Puna, descendente de um dos nobres que assinou o Tratado, morreu na prisão. Muitos ainda se lembram do dia em que as tropas angolanas o arrastaram, gordo e pesado, para uma carrinha aberta e o levaram, para nunca mais ser visto. O padre Jorge Congo, de quem o povo diz ser o mais «corajoso» e que já é conhecido como «o Xanana de Cabinda», foi recentemente ameaçado de morte e ficou sem telefone, sabendo-se que é vigiado permanentemente.

Os responsáveis governamentais nomeados por Luanda para dirigir esta «província» de Angola rejeitam todas estas acusações. O coronel Futi, que foi durante seis anos vice-governador do enclave, nega esta tendência maioritária para a independência e diz que o povo o que quer é ter comida à mesa e petróleo em casa. O resto é «política feita pelos padres», que só querem o poder, acusa.

Futi nega igualmente o reforço do contingente militar em Cabinda que agora aconteceu e que se verifica sempre que há acontecimentos deste tipo. Mas não esconde que as forças angolanas «andam atrás deles na mata». «Nesta, como em qualquer guerra, é natural apanhar pelo caminho alguns civis», acrescenta. Há cerca de 15 dias, milhares de soldados das Forças Armadas Angolanas (FAA) foram enviados para o enclave e participam numa operação militar massiva sobre a selva do Maiombe, que serve de refúgio aos rebeldes, destruindo tudo pelo caminho. Aldeias queimadas, civis mortos e, novamente, muitos deslocados para os centros urbanos. Os independentistas respondem com a guerrilha-surpresa, saindo pela calada de uma mata tão densa que ao meio-dia ali já é noite e onde as árvores têm mais de cem metros de altura: há dias, numa emboscada, atacaram um grupo de militares da Segurança do Estado, mataram três deles e feriram gravemente outro. Diz-se pela cidade que, durante uma semana, as baixas deste conflito se acumularam discretamente no Hospital Militar de Cabinda, tendo sido transferidos para Luanda pelo menos 15 corpos de militares angolanos. O povo de Cabinda é pacífico, respondem os seus representantes tradicionais. «Angola é que nos ensinou a matar e a roubar», justifica Simão Congo.


Coro da missão do Espírito Santo durante uma missa

É nesta guerra com Angola que radica uma das razões históricas invocadas pelo povo de Cabinda, que também condena Portugal. Por este Tratado de 1885, Portugal comprometeu-se a «proteger» Cabinda e, no entanto, «permitiu que, durante o processo de descolonização, Angola a anexasse». «Cabinda nunca disputou território com os colonizadores. Portugal, com uma certa sagacidade, conseguiu, de uma maneira fácil e amistosa, um acordo com os nobres locais, no qual reconhece Cabinda como Nação e se compromete a nunca deixar violar este território», explica Raul Tati. E, se mais razões não houvesse, bastaria estudar as iniciativas diplomáticas dos líderes locais de Cabinda na reivindicação da independência do enclave, justifica o vigário. Segundo Tati, a primeira delegação de independentistas foi a Portugal nos anos 40, apelar ao Governo de Salazar para considerar a questão. Em 1958 surgem os primeiros movimentos políticos cabindas e, em 1963, juntam-se numa frente comum, durante um congresso realizado no Congo-Brazaville. «Quando isto começa ainda não há exploração de petróleo, para que possam justificar-se estas iniciativas como uma tentativa de alguns homens importantes daqui de também ganharem alguma coisa com a riqueza natural da terra. Não, esta é uma reivindicação legítima, que radica, isso sim, na consciência que este povo tem da sua própria identidade», acrescenta o padre Tati.

Todas as manhãs, as ruas da cidade de Cabinda enchem-se de crianças e jovens vestidos de bata branca e de mochila às costas. Não se vê nada parecido em qualquer outra região de Angola. Uma herança provável dos tempos em que milhares de cabindas fugiram para o Congo e o ex-Zaire, levaram consigo os padres e, como refugiados, ocuparam o tempo nas escolas improvisadas pelos representantes da Igreja Católica. Será por isso, aliás, que de Cabinda têm saído muitos ministros para o Governo de José Eduardo dos Santos, além dos cinco bispos, naturais do enclave, que integram a Conferência Episcopal angolana.

Mas esta preocupação em saber mais contrasta com tudo o que se vê em Cabinda. O alcatrão das ruas não é tapado desde o colonialismo. As casas e os prédios, velhos, quase todos a apodrecer, mantêm a traça arquitectónica dos anos 50. Não houve guerra em Cabinda, é certo, mas também não se fez um único investimento de fundo nos últimos anos. Nem mesmo as empresas portuguesas, com estaleiros no enclave há anos, podem dizer que têm hoje muitas encomendas de obras. Uma ou outra iniciativa privada, feita com o acordo do Governo provincial, começa a dar alguns passos: o Grupo português Espírito Santo construiu uma estação de tratamento de águas e fez um protocolo para a gestão do Hospital Provincial de Cabinda, que garante o fornecimento de alguns medicamentos e o trabalho de dois ou três médicos portugueses.

Padre Jorge Congo, a quem chamam «o Xanana de Cabinda»

Mas nada mais cresce em Cabinda. A não ser o lixo, os buracos das estradas e as doenças. E tudo isto apesar de Cabinda produzir 90% do Produto Interno Bruto de Angola e do enclave receber por mês seis milhões de dólares, uma espécie de imposto sobre o petróleo, que é pago desde 1999 pelas grandes petrolíferas estrangeiras, alegadamente a favor de obras sociais e de apoios concretos para o povo. A verdade é que quase todas as escolas da cidade foram construídas, extra-imposto, directamente pela Chevron, uma das petrolíferas norte-americanas instaladas em Cabinda.

É num barracão pré-fabricado que funciona, dentro do recinto do hospital, o «orgulho» da irmã Maria Luísa. Missionária espanhola, em Angola há quase 40 anos, a freira cruza-se todos os dias com os doentes com sida e tuberculose, sem se proteger e sem se preocupar. «A minha vida não me pertence. Deus vai proteger-me enquanto entender que posso ajudar estas pessoas.» Fala depressa demais e está sempre a sorrir, mesmo quando diz que essa é «a gente que mais ninguém quer». No seu serviço de infecto-contagiosas, as camas têm lençóis, as janelas cortinados e os doentes são alimentados pela comida que a própria irmã Maria Luísa cozinha. É ela que arranja tudo. Pede às empresas comida e medicamentos, pede ao Governo uma televisão, pede sempre, permanentemente, para conseguir o que parece impossível num hospital africano: que os doentes saiam de lá «mais bem tratados e mais gordos do que quando entraram». Maria Luísa até alimenta os enfermeiros: «Coitados! Eles também não têm nada!» E, às sextas-feiras, distribui comida pelas famílias dos doentes que já estiveram internados mas que, obviamente, continuam a precisar de ajuda.

A sida e a tuberculose são os principais problemas da irmã. Isso e a falta de medicamentos. Recentemente, conseguiu ter um abastecimento de tuberculíticos, mas para a sida não há qualquer saída. A não ser umas mezinhas que a própria freira faz e que ajudam a combater a diarreia. Alfredo Chipitanga diz-nos que é professor mas, por estar doente e internado há dois meses, sabe que perdeu o emprego. Tem só 41 anos mas está tão magro e tão fraco que parece ter quase o dobro. Pede ajuda porque tem filhos para alimentar. «Aqui nem tenho nada com que escrever…» A irmã passa por ele e lança-nos um olhar de tristeza, a dizer aquilo que já adivinhávamos: este homem já tem pouco tempo de vida. Depois segue em direcção à Rosália, uma mulher com cara e corpo de menina. «Se o teu marido vê isto tudo desarrumado, deixa-te de vez», atira-lhe a freira, com uma gargalhada. Rosália nem responde. Parece ter perdido todas as forças, até para sorrir. Levanta os olhos na nossa direcção. Responde-nos que tem 24 anos e que estava a estudar Ciências. Já nem sequer é a primeira vez que está internada.

O pavilhão da sida do Hospital de Cabinda é dirigido por uma freira espanhola. Aqui, há lençóis na cama e comida para os doentes, mas nos outros serviços do hospital já não é assim
Ao lado deste pequeno pavilhão está o edifício propriamente dito do Hospital Provincial de Cabinda. Bastam, pois, uns passos para perceber a dimensão do trabalho da irmã Maria Luísa. No serviço de Medicina, onde a maior parte dos doentes também têm sida, malária e tuberculose, as camas não têm roupa, as janelas são buracos enormes na parede, às vezes tapados com placas de madeira. O hospital não tem dinheiro para alimentar os seus doentes, por isso são os familiares que, todos os dias - ou só quando podem - trazem alguma comida e ajudam os seus a sobreviver. Um velho, demasiado magro, cobre-se com uma manta rasgada. Debaixo do pano velho descobrem-se apenas uns grandes olhos abertos. «Não como há 14 dias», sussurra.

As mesmas cenas de miséria e abandono multiplicam-se pelos outros serviços. Alguém nos diz, pelas costas, que o hospital é um dos melhores de Angola. Espreitamos para dentro de uma das enfermarias do serviço de Pediatria. As crianças estão deitadas duas a duas em cada cama. Lá ao fundo, um menino de quatro anos está imóvel, ligado a um tubo de soro. «Tem malária. Está em coma», comenta a enfermeira. A doença provavelmente vai acabar por matá-lo, porque é assim que acontece sempre no país com uma das maiores taxas de mortalidade infantil do mundo.

Melhor sorte vão ter, talvez, os meninos de Bumelantango, filhos de um grupo de refugiados que, há cinco anos, fugiu da zona da fronteira com o ex-Zaire por causa da guerra com a UNITA. É ali que, desde há uns meses, Marieta Tavares - uma cabo-verdiana que, desde pequena, vive em Cabinda - perde algumas horas dos seus dias ajudando a dar melhores condições de vida a este grupo de refugiados. «Ainda no mês passado eles estavam com as barrigas tão inchadas… Agora, estão muito melhores, está a ver?» - diz, apontando para um grupo de crianças.


O paciente desta foto disse-nos que não comia há 14 dias

Marieta é uma mulher de armas, que também lutou por Cabinda e pela dignidade dos filhos da terra. Em 1992, organizou uma manifestação de mães, contra o recrutamentos dos jovens do enclave para a guerra civil angolana. «A guerra era dos angolanos, não nossa», lembra. A manifestação ia acabando em desgraça mas as mulheres estavam dispostas a não desistir a qualquer preço. Mais uma vez, foi a Igreja que intermediou: abrigou as mulheres na missão e acalmou os ânimos dos militares. E o resultado foi que os jovens de Cabinda acabaram mesmo por não ser recrutados.

A luta de Marieta prossegue agora noutras frentes. Criou a Associação Bom Samaritano e, através dela, já fundou um orfanato e dá apoio às famílias de deslocados um pouco por todo o enclave. Em Bumelantango vivem cerca de 80 famílias. Sem o apoio da associação, estariam até hoje a dormir na rua, a passar fome, a morrer. Marieta conseguiu arranjar-lhes um abrigo, que aos poucos tem estado a ser pintado para ficar com aspecto mais limpo. «Agora, vocês têm de limpar isto tudo como deve ser, todos os dias, e ensinar as crianças a não sujar», diz-lhes Marieta. Depois, combina: «A partir de amanhã, começam a vir as camas. E vocês é que têm de as montar. Mas eu venho cá ajudar, está bem?» - acrescenta, sorrindo. Também a Associação Bom Samaritano vive de doações e de ajudas das empresas estrangeiras que trabalham em Cabinda.

«Estamos à rasca, muito à rasca. Temos pouca comida, não podemos plantar, nem conseguimos voltar para a nossa terra.» João Machete, 45 anos, lembra a vez em que um rapaz saiu para caçar e, «poucos metros à frente», morreu por ter pisado uma mina. Há cinco anos que não vê a sua terra, não sabe como está a sua casa e tem demasiado medo sequer para pensar em voltar. A miséria é tanta que impede estes homens de procurarem mais do que a mandioca e a banana para se alimentarem. E têm isso porque é o que nasce espontaneamente da terra.

Simão Congo, herdeiro de um nobre cabinda e regedor do lugar de Simulambuco, diz que os raptos são uma forma de mostrar ao mundo «a miséria» do seu povo
Um homem alto, magro, desdentado, de roupa esfarrapada, acompanha-nos na visita aos refugiados. É Pedro Zau Baiua, regedor de Bumelantango, a autoridade tradicional que todos ainda respeitam e a quem pedem ajuda. Mas este velho, que carrega nos «erres» e fala uma estranha língua, também não pode fazer nada. «Havemos de voltar a ter a nossa terra», diz para o seu povo.

Custa a acreditar que é desta terra que sai 12% do petróleo consumido pelos Estados Unidos, para não falar dos diamantes, da riqueza da madeira e do ouro que ninguém explora. Todos os dias, os mares de Cabinda dão à Gulf Oil 800 mil barris por dia, que partem em petroleiros, saídos de um porto privado, construído na praia de uma cidadela murada e fechada a sete chaves, o Malongo. É aqui que funciona a Gulf Oil de Cabinda, um país dentro de outro país. Ninguém de fora lá entra, nem ninguém de dentro pode sair. Trabalham ali quase cinco mil pessoas, sendo 1500 residentes, de mais de 30 nacionalidades. Ali estão também 200 portugueses que, no entanto, não correm o risco de serem raptados. Só saem ao fim de 28 dias seguidos de trabalho, para entrar numa camioneta que os leva directamente à entrada do avião para Luanda; quando voltam, ao fim de outros 28 dias, fazem o mesmo percurso vigiado e seguro.

O Malongo tem tudo o que é preciso ter, ou seja «um nível de vida igual ao de qualquer cidade americana ou europeia». É provavelmente um dos únicos sítios de África onde se pode abrir a torneira e beber água à vontade. E não depende em nada -nem em energia nem em comunicações -das infra-estruturas do país.


Dois soldados do exército angolano montam guarda na obra da Soares da Costa

Estas instalações da Gulf Oil ocupam 5 km2 de terreno, com acesso directo ao mar. Na frente do Malongo, o horizonte está salpicado por múltiplas plataformas de petróleo, que ninguém, nem mesmo de avião, pode contar.

«Tivemos uma única vez problemas com a FLEC. Em 1993, foi raptado um norte-americano», conta Carlos Silva, director do Departamento de Segurança do Malongo. «Foi o sinal para passarmos a ter mais cuidado. Afinal, esta empresa tem responsabilidade sobre a vida das pessoas que aqui trabalham, e Cabinda é uma região muito sensível», acrescenta. Depois, exemplifica: quando algum trabalhador não nacional tem de sair, vai sempre acompanhado com segurança e nunca sai do Malongo de carro, mas sim de helicóptero ou de barco.

Só os três mil trabalhadores cabindas é que entram e saem diariamente do Malongo. Só eles, afinal, podem contar aos compatriotas como é a vida vivida à custa do petróleo.
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In Expresso 07 April 2001
http://online.expresso.pt/


 


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