The National Language of Cabinda is called Ibinda

 Cabindês, Fiote ou Ibinda

A Língua Nacional de Cabinda

A língua vernácula, veicular e literária de Cabinda chama-se Ibinda. 

Assim foi designada por estudiosos Cabindeses no termo de aturadas pesquisas, há cerca de três décadas.

Porém, não é raro encontrar quem involuntariamente ignore tão importante revelação. Outros, pactuando deliberada-mente com o mal, fingem ignorai e continuam a fazer eco a uma repugnante invenção colonialista. Outros, ainda, alimentam ingenuamente a insubsistente teoria de que a língua dos Cabindeses é o Kikongo. 

Perante esta desprezível constatação e, sobretudo, porque em muitos círculos sociais se ouve falar com acentuada impertinência em "língua Fiote", necessário e urgente se torna elucidar a questão.

O Fiote - dita língua falada pelos nativos de Cabinda - não é nada mais senão um dos insípidos produtos da máquina colonial portuguesa.

Na verdade, o termo aportuguesado "fiote" proveio da palavra Cabindesa "m'fiôte", que significa "negro", "pessoa de raça negra". Estando aquém da etnografia, os colonos portugueses instalados no protectorado de Cabinda deram-se o luxo de chamar "fiote" não só o autóctone de Cabinda, como também e mormente tudo o que por eles fosse considerado de qualidade inferior (?). 

Por consequência, era "fiote" o nativo de Cabinda e tudo o que estivesse inerente aos usos e costumes do Povo de Cabinda. 

Noutros termos, os valores da cultura Cabindesa, inclusive a língua, passaram a ser "fiote", isto é, coisas vis. Ilustremo-lo com um exemplo: o atalho, que também era frequente encontrar no "Puto" (i.e. Metrópole, Portugal), em Cabinda passou a ser chamado "caminho fiote" caminho do negro, em oposição à estrada, obra dos brancos. Todavia, toda a gente sabia (e sabe) que eram os Negros, sob o incisivo chicote do contrato, as "máquinas" que construíam as estradas.

Tomemos mais este exemplo: à galinha criada pelo, nativos na aldeia se chamou "galinha fiote", só porque criada na "sanzala" e naturalmente menos desenvolvida do que a dos aviários do branco. 

Ninguém esquece, contudo, que era o Negro quem criava as galinhas do branco, trabalhando nos aviários em troca de um salário (se o houvesse) de fome e numa atmosfera de insultos de toda a natureza. E bem se sabe que a menosprezada "galinha fiote" era, uma vez enchurrascada, a mais apreciada pelo branco.

Outro exemplo: o rito "fiote" da casa-de-tinta contou sempre com a sôfrega concorrência de brancos sem escrúpulos e ávidos em desflorar raparigas "fiotes" em cabanas e camas "fiotes", não obstante a abissal diferença etária entre o verdugo e a vítima aterrorizada e infeliz.

Em suma, tudo o que não fosse de origem europeia foi etiquetado "fiote": mamão fiote, manga fiote, batata fiote, etc...

Voltemos à expressão "Língua Fiote".

E' do conhecimento de todos que nunca houve ser humano cuja língua fosse designada pelo mesmo termo que exprime a cor da sua pele, isto é, a sua raça. Se assim não fosse, haveria no mundo muito poucas línguas. entre outras, a língua branca, língua negra, língua mestiça. Desse modo, facilmente se compreende que é inconcebível a existência de uma língua Fiote (i.e. língua Negra) em Cabinda.

Três factos estiveram, certamente, na base da mais fabulosa descoberta portuguesa em terras de além-mar, a "Língua Fiote":

1) No mórbido interesse de conhecer aspectos da cultura Cabindesa para melhor imperar, o colono português tinha o hábito de formular a seguinte pergunta: "Como se diz (ou se pode traduzir) - por exemplo o ditado "Tal pai, tal filho" na vossa língua"? A essa questão o ancião interpelado respondia simplesmente: "Mu ifiôte chítu (buau kuábu): ..." ou, traduzindo à letra, "No nosso ifiote diz-se (assim): ...Ora, "Mu ifiôte chítu" não significava, nem significa, "no nosso ifiote", nem tão pouco "na nossa língua fiote".

Aquela expressão quer, antes, dizer "na nossa cultura", i.e. segundo a nossa cultura negro africana de Cabinda. E note-se que, em qualquer dos dialectos de Cabinda, a referida expressão era similar: "mu ifiôte chítu"; "mu chifiôte chítu"; "mu kifíôte kietu"; etc... Assim, é de presumir que o colono se tenha cingido à tradução literal dos seus inculpáveis intérpretes para deduzir que a língua dos nativos de Cabinda era o (i)fiote.

2) Em contacto com os autóctones, o colono português apercebeu-se, indubitavelmente, de que em Cabinda não havia senão uma língua, e que o "iwóyo", "ikuákongo", "ikóchi", "ilínji", "kiyómbe", "kisúndi" e "ivili" não passavam de meros dialectos. É também de esperar que a mais vulgar definição de "dialecto" (uma linguagem particular de uma região derivada da língua principal) não lhe era estranha. Neste caso, uma pergunta pertinente era inevitável: "Como se chama, então, a língua principal dos habitantes de Cabinda"? Esta pergunta requeria uma resposta plausível e ponderada na época, o que não sucedeu.

Poupando-se ao esforço de busca e por manifesta falta de criatividade, para além do desmedido complexo de superioridade de que padecia, o colono não hesitou em denominá-la Fiote, porquanto seu locutor nativo era negro, preto - "m'fiôte". Esqueceu-se, porém, de que ele próprio não falava "branco", já que era de raça branca, mas, sim, português.

De mais a mais, sabe-se que muitos foram os brancos que passaram por Cabinda e nenhum deles se exprimia em branco. Uns falavam francês outros holandês, inglês, etc... O mais interessante é que jamais ocorreu ao nativo de Cabinda chamar à língua de qualquer branco - MúNDELE". (i.e. branco, homem ou pessoa de raça branca), visto que era impensável que alguém se exprimisse numa língua que se designasse pelo nome da raça de quem a falava.

3) Muito antes de conviver com os nativos de Cabinda, o colono português teve o azo de verificar que os Negros dos Reinos de Loango, Kakongo e N'Goyo de outrora não falavam Fiote, mas línguas em
conformidade com as designações das suas respectivas tribos (ou povos): Kisolongo, Kikongo, Kimbundu, Umbundu, Cokwe, Ngangela e Kwanyama. 

Nesses moldes, mete dó ver que não foi nada mais do que um premeditado e crasso erro etnográfico cometido por maliciosa ignorância, o facto de o mesmo colono ter encontrado somente em Cabinda negros cuja língua era o Negros, i.e. o (i)Fiote.

Por conseguinte, afirmar a existência de uma língua Fiote é um convite à afirmação da existência de línguas brancas, amarelas e mestiças. E porque estas nunca existiram, é pura insensatez falar em "língua fiote''.

Com efeito, não precisamos da celebridade de sermos os locutores da língua Negra (Fiote), os Negro-africanos que se exprimem em Negro. Se admitimos, por exemplo, que o colono portugues tenha chamado "gorila" ao nosso "mpungu", não assentimos que o termo por ele usado pejorativamente não só para designar a nossa língua, mas também como atributo preferencial dos demais valores sagrados da nossa cultura, persista no léxico de quem quer que seja. 

Ibinda é a nossa língua. Por isso, "língua Fiote" não passa de uma aberração colonial, um horrífico e desonroso vestígio do colonialismo português, que urge ser expurgado. 

E, neste âmbito, estamos plenamente certos de que nunca será demais continuarmos unidos na defesa e preservação dos valores culturais legados pelo colonialismo português e, de igual forma, coesos no combate aos hediondos erros dele herdados. Atitude contraria seria, em nossa opinião absurda a quantos insinuam que a língua dos Cabindeses é o Kíkongo, queremos somente recordar que "porvir de" não significa reproduzir, procriar ou gerar. 

A língua dos nativos de Cabinda - o Ibinda proveio do Kikongo, da mesma forma que, por exemplo, o português, o francês, o italiano, o espanhol, o romeno provieram do Latim, não obstante a disparidade de circunstâncias históricas de procedência.

Assim, a nossa língua é (e não podia deixar de ser) necessariamente algo diferente da língua-mãe. "Sapienti sat", dizem os latinos.

Professor António Zati
Cabinda, Janeiro 1998

Viva a Língua Nacional de Cabinda!


MENU - INDICE

cabinda@gmail.com