Entrevista Histórica, realizada por J.L.Veras
Confiando-se a Cabinda Resistente,

MARIA NENETTE DIONGA

"Declara a autonomia não tem qualquer significado para o Povo de Cabinda".

Maria Nenette Dionga, de pais Cabindas, é uma senhora cujas ramificações familiares se estendem em quase todo o território de Cabinda e nas duas repúblicas vizinhas que albergam grande parte dos refugiados e emigrados do Estado.
Com 51 anos, Maria Nenette Dionga milita na FLEC de que é Co-fundadora desde, o Congresso que viu nascer esta organização a 4 de agosto de 1963, em Ponta Negra (Loango).

Militante intransigente pela Independência de Cabinda desde os seus 14 anos, Nenette Dionga participou nos anos 60 nos maquis da Junto Militar no Exílio, do falecido Alexandre Tati, esteve com os TEs em Cabinda onde sofreu perseguições da à PIDE-DGS portuguesa. Presa por duas vezes, sendo a segundo juntamente com o Presidente N'Zita e vários outros filhos de Cabinda, de entre os quais muitos ainda se recorda como : Manuel N'Goma (Muana Popi), José Bras, Mateus Macaco, Ernesto M'Bumba, Raimundo Kubindama, foi forçada a um segundo exílio, em 1974, depois da ocupação do Estado de Cabinda pelas forças guerrilheiras do MPLA sob a cumplicidade dos comunistas portugueses.

Na sua vida conjugal, destaca-se as suas alianças como esposa do malogrado primeiro  Presidente do Gabão, Léon M'Ba, com o qual infelizmente não-teve filhos.
Na sua carreira política, Maria Nenette Dionga militou sempre ao lado do Presidente actual da FLEC/FAC  H. T. N'Zita com o qual alias sofreu varias cadeias.
Na qualidade de esposa de Léon M'Ba, ela manteve contactos com vários chefes de Estado africanos como N'Kuame N'Khruma do Gana, Silvanius Olympio do Togo Amadou Ahidjo dos Camarões e, com Léopold Sédar Senghor e Yuolou Filbert com quem discutiu varias Vezes a questão de Cabinda. A sua Intervenção, segundo afirma, junto do primeiro presidente Congolês, a favor dos refugiados Cabindas que afluíam as fronteiras deste país nos anos 60 contribuiu no desbloqueio de uma assistência humanitária para estes.

Mme Nenette afirma também ter facilitado uma audiência entre uma delegação do então presidente da FLEC, Luís Ranque Franque, e o Presidente Youlou Filbert.
 A sua devoção e determinação à causa do povo de Cabinda, a sua Incorruptibilidade, o firmeza valeram-lho o nome do "Dama de Ferre do Cabinda" ou o da "Mãe da Revolução " segundo  vários círculos Cabindas.
Querendo recolher as suas Impressões como mulher militante da causa Cabindesa, sobro a actual situação, Cabinda Resistente entrevistou a senhora Maria Nenette Dionga, sempre no seu ar de uma mistura de aversão anti-angolana e a paixão pela causa do-seu Povo.

P - Mme Nenette como militante que segue desde o inicio a luta patriótica de Cabinda, o que e que pensa da etapa actual desta luta?

R - Primeiro penso que a minha terra deve ser libertada: a minha pátria deve sair da opressão. Para mim, a autonomia que os angolanos propagam não tem qualquer significado. Segundo, todos os Cabindas e de todos nos. Na fase actual da luta, o combate deve continuar ate a libertação porque o MPLA tem de saber que Cabinda e terra de gente decidida para o que quer, pelo direito e pela justiça.

P - A que e que se devem as complicações quase crónicas na luta e como faze-la triunfar?

R : As complicações... muitos não compreendem que o inimigo aproveita qualquer divergência entre nos , contudo não são graves para nos dividir. Os angolanos do MPLA tal como os conheço são grandes intriguistas e fazendo uso da mentira tentam criar discórdias entre os Cabindas.
Os meus irmãos Cabindas deveriam saber que no inicio todos comungávamos a mesma opinião e estávamos unidos num mesmo ideal e isto inquietou muito os nossos adversários. Hoje o Inimigo aproveitasse dividindo-nos para melhor reinar.
Para uma vitoria rápida, todos os Cabindas devem primeiro formar um único bloco, um único punho, intelectuais, camponeses, pobres e ricos, velhos e jovens, mulheres e crianças, todos em volta de um único Chefe comungando uma única linguagem sem fugirem do pensamento que herdamos dos, nossos antepassados.

P - A senhora conhece bem todos os líderes Cabindas. Como é que os qualificas?

R - O que noto em muitos líderes Cabindas, principalmente nos mais jovens, é a ambição pela chefia. A luta que hoje levamos a cabo não é pelo poder mas sim para a nossa libertação. O problema de chefia ou não chefia devera ser disputado amanha depois da libertação de uma maneira legitima. O povo devera ser chamado a escolher os seus dirigentes numa Cabinda independente através do voto.
Cabinda é um Pais pequeno mas com direitos iguais como todo e qualquer outro pais. Os seus filhos terão mão-de-obra estrangeira (mas restrita) para certas actividades onde nenhum Cabinda possa ser encontrado para desempenhar tal tarefa.
O que esta em causa é a nossa existência e não a chefia da luta... que consiste em pormos termo à dominação dos ladroes angolanos que pilham as nossas riquezas.
Sei que há muitos ditos líderes Cabindas que entravam a boa marcha de luta por causa da chefia. Mas, aconselho a todos os meus irmãos de respeitarem aqueles que têm o dom e que desde sempre dão o seu melhor para o avanço da nossa luta que breve poderá triunfar.

P - Mme Nenette ouviste que há Cabindas que fazem hoje propaganda para a autonomia, o que é que pensas?

R - Todos aqueles que fazem propaganda a favor da autonomia não são verdadeiros Cabindas. Cabindas genuínos nunca podem falar nem defender a autonomia. A autonomia é o quê ? Qual é o direito que os angolanos têm de nos falar de autonomia ?
Os grandes culpados disto tudo são os portugueses que deveriam pronunciar-se sobre este problema. Quando os portugueses assinaram com os nossos antepassados os tratados de Chinfuma, Chicamba e Simulambuco será que eles o fizeram com os angolanos?
Os nossos antepassados legaram-nos que Cabinda não é Angola e nunca pode ser Angola. Sobre este ponto não ha entendimento possível, Não temos qualquer fronteira, cultura ou ideologia comum com angola... O nosso problema é claro e o mundo deveria pronunciar-se a nosso favor e não favorecer a dominação angolana que não faz senão destruir a nossa cultura e pilhar as nossas riquezas.

P - Como qualificas esses Cabindas?

R - São traidores... eles traem os nosso antepassados Makakongo, Mangoyo e Maloango.

P - Será que autonomia é uma solução que pode ser proposta aos Cabindas depois de tantos anos de luto ?

R - Mas desde que o MPLA invadiu Cabinda o que é que os angolanos fizeram. 18 anos de pilhagem não chegam ?
O Mpla não pode brincar connosco. A autonomia não é uma solução para Cabinda. Se os angolanos quisessem falar de autonomia deveriam te lo feito logo de inicio e não agora. Aceitar a autonomia seria trairmos as almas dos nossos heróis e de
aqueles que morrem e sofrem por este povo, de todos aqueles que foram deportados por Agostinho Neto pelo simples facto de serem Cabindas muitos dos quais foram enterrados como cães no, sul de Angola.
Se o Mpla quiser autonomias então que os faça em Angola com Savimbi, Holden Roberto e outros angolanos e não em Cabinda. Porque é que Eduardo dos Santos insiste na questão de autonomia ? Ele pensa que nos não conhecemos a nossa historia ?
Para mim, Kwi Kwika n'londji. A autonomia não é uma solução para Cabinda.
Todos os Cabindas que se alinharem nesta política de autonomia serão amaldiçoados pelos bakulos.

P - Ha pessoas que propõem que a solução seja encontrada numa autonomia
progressiva para a independência, qual é o seu comentário?

R - Essas pessoas têm olhos mas não vêem : têm cabeças e não pensam. Se o MPLA quisesse isso deveria tê-lo feito muito, antes. Depois de tanto matar é que quer falar de autonomia! Progressiva ou não é uma autonomia da qual os angolanos, diabólicos que são, irão se aproveitar para eliminar todos os verdadeiros nacionalistas. Qualquer convivência com os angolanos é extremamente perigosa.
O para além disso o povo não quer saber de autonomia seja qual for a sua cor... com pés ou não é sempre algo que vai perpetuar a dominação angolana em Cabinda.
Porque é que os angolanos não aceitam irmos direitinhos ao objectivo ? Porque é que não tratemos a abcesso para o doente fazer os seus movimento sem receios ? Vamos consultar o povo para vermos o que é que este povo quer !

P - Que conselhos recomendas aos actuais líderes Cabindas para conseguirem conduzir a bom termo a luto de libertação ?

R - Devem pôr nas suas consciências que Cabinda pertence a todos os filhos desta terra. Devem todos juntar-se porque só assim haverá harmonia.
Os líderes Cabindas devem deixar de se guiar pelos dólares angolanos. A honestidade é o que lhes recomendo dando mostras da sua inteligência, do seu patriotismo, como o Presidente N'Zita que desde sempre nunca vassilou.
Os novos devem ter em consideração o trabalha dos antigos e o seu contributo nesta luta conservando assim a nossa Tradição Africana como Cabindas.

CABINDA RESISTENTE
Edicao em lingua portuguesa
Numero 05. de 1 de Marco 1993
jornal@cabinda.net


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