I PARTE
TESTOS OFERECIDOS PELA FAMÍLIA AO FILHO
A) ANTES DO CASAMENTO
CAPITULO I
RESPEITA A MULHER
A mulher em África é ainda, em multas regiões, uma mercadoria. Valiosa mercadoria.
O noivo e a sua família têm de pagar avultada soma à família da noiva, em dinheiro, géneros e vestuário. Ao conjunto de todas essas ofertas dá-se o nome de Alambamento.Uma vez casado, o homem pensa em descansar e para isso obriga a mulher a trabalhar, chegando mesmo a ser cruel e exigente. Acha, porém, que tem direito a todos esses sacrifícios da esposa, e a descansar, pois a comprou por bom dinheiro.
A família aconselha o filho a que seja condescendente e respeitador para com a futura esposa. Mas não, deve ser bom de mais, sob pena de nunca mais poder fazer vida dela...
TESTO N' 1
(diametro : 23,50 cm)
Figuras :
1 - Passaro na ratoeira.
2 - Simples enfeite, sem significado especial. Autentica asa do testo.
Provérbio:
1) Buitikizi mu ntambu!...
- I suka toka chi kele...«Preso na ratoeira... (diz o caçador) .
- Só a minha cauda ficou presa" (diz o pássaro; e, por isso, quando me apetecer, deixo ficar a cauda e vou-me).
Sentido: todo o homem, por mais infeliz que seja, tem direito à liberdade.
Provérbio, português: O boi tanto o picam até que se sente.
Explicação do testo:
1) Deves tratar sempre bem a tua mulher e não apenas no principio do casamento.
E' certo que deste alambamento, mas não penses que ela não tentará fugir para junto da sua família, se a tratares mal.TESTO N' 2 Provérbios:
(diametro : 16,50cm)
Figuras :
1 - Passaro na ratoeira (ja sem cabeca)
2 - Bebedoiro do pato.
1) Buitikizi mu ntambu!...
- I suka toka chi kele...«Preso na ratoeira...
- Só a minha cauda ficou presa» (diz o pássaro; por isso quando me apetecer, deixo ficar a cauda e vou-me).Sentido: todo o homem, por mais infeliz que seja, tem direito à liberdade.
2) Tchioko-tchioko u mazi mi nuá vadangu,
nsussu ku podi ku nuá kó.«A maneira de beber do pato, não serve para a galinha.»
Nota: «Tchioko-tchioko» é a imitação do ruído que o pato faz ao beber.
Sentido e Prov. port.: Cada um é como Deus o fez.
Explicação:
1) Deves tratar sempre bem a tua mulher e não apenas nos primeiros anos. O facto de teres dado alambamento não justifica uma conduta de contínua escravidão.
Se a não estimares como deves, deixar-te-á e irá para junto da sua família.2) Toma, logo de início, uma norma de proceder nem suave, nem dura de mais. Mas respeita sempre a sua maneira de ser e de pensar.
Assim podereis viver em paz.
CAPITULO II
NAMORA Só UMA
A legislação portuguesa ultramarina contraria a poligamia. Mas os resultados não têm sido extraordinários pois tal costume está bem radicado no espírito dos nativos; é até um modo de viverem melhor e sem grandes preocupações. A razão está no facto de a mulher ser quase a única em Cabinda a trabalhar nos campos e nas lides da casa. Quanto mais mulheres o homem tiver, mais comida terá e serão em casa outras tantas «criadas».
Uma outra razão reside no facto de não serem permitidas relações maritais durante o período de gravidez e de amamentação, indo este de dois a três anos.
Porém, as concubinas nem sempre se entendem como seria de desejar e, não raras vezes, o polígamo leva uma vida repleta de questiúnculas.
A família chama a atenção do filho para as mulheres de vida fácil, que raras vezes se mantêm fiéis por muito tempo. Por fim recomenda-lhe um exame atento às qualidades da noiva, pois nem todas são o que se pintara...
TESTO N'3 (R) Provérbios:
(diametro : 17,50cm )
Figuras :
1 - Bananeira caida, com cacho de bananas.
2 - Quadro frutos Ntumpu-Mvemba.1) Nuanina i tebe,
ku nuanina nkuku kó.«Apanhar o cacho de bananas e não se preocupar com o tronco da bananeira.»
Nota: os Cabindas destroem «impiedosamente» o tronco da bananeira para conseguirem o cacho; também de nada lhe valerá ficar de pé, uma vez que não produz mais cachos.
Sentido: o que interessa é o valor das pessoas e não a sua aparência.
Prov. Port.: antes mulher de varredor, que amante de doutor.
2) Ntumpu-Mvemba: lina tumbukua, li tumbukizi.
« (Afirmo pelo) fruto Ntumpu, consagrado a Mvemba: aquilo que chegou à superfície, apareceu mesmo".
Nota: «Ntumpu» é um fruto silvestre, consagrado ao feitiço "Mvemba", grande divindade de Cabinda.
Dá-se também para facilidade de linguagem e por acomodação, o nome de «Ntumpu-Mvemba» ao referido fruto.
Acontece ser ele arrastado para o mar. As ondas encarregam-se de o atirar para a praia, ficando então à vista de todos. Daí o trocadilho existente no provérbio : assim como o referido fruto fica à vista de todos, assim eu manifesto tudo o que me vai no intimo.
Como prova disso invoca-se o feitiço Mvemba.Sentido: nada escondo do que tinha contra ti.
Prov. port.: quem te avisa, teu amigo é.
Explicação:
1) Andas a namorar duas raparigas ao mesmo tempo, sendo uma virgem e a outra de maus costumes. E, pelo que vemos, dás mais estima a esta última. Namora e casa com a virgem e deixa a outra, pois bem sabes que não tem valor.
2) Este o conselho amigo que te damos, porque queremos que sejas feliz.
TESTO N'4 (R)
(diametro)
Figuras :
1-2) Homem a puxar duas cordas.
3 - Coconote.
Provérbios:
1-2) Zi bamba zi uali ka podi vola kó.
"Não se podem puxar duas cordas ao mesmo tempo.»
Nota: Os Cabindas aplicam este provérbio ao homem que namora, ou casa, com duas mulheres. Durante o tempo de namoro terá muito trabalho para juntar o alambamento para as duas, ao mesmo tempo. Se vier a casar com elas, terá muitas dificuldades e dissabores, pois dificilmente se entenderão, vivendo em paz e sossego.
Se vier a casar com elas, terá muitas dificuldades e dissabores, pois dificilmente se entenderão, vivendo em paz e sossego.Sentido: não se podem fazer duas coisas ao mesmo tempo.
Prov. port.: não se pode fazer a par, comer e assoprar.
3) Papa nkandi uele:
i papa i bola ku maiala."Muitos coconotes cheios: muitos deles hão-de ficar podres na lixeira.»
Nota: Em Cabinda, os nativos usam muito dendém para prepararem os alimentos. Deitam fora o caroço, a que chamamos coconote, por detrás da casa, chegando a juntar grande quantidade dele, na esperança de um dia o partirem para comer, ou vender. Mas a maior parte apodrece por estar durante muito tempo exposto ao sol e à chuva.
Pelo provérbio indicado querem eles significar que há gente boa e má - tal como no monte de coconote os há bons e podres - e que portanto as aparências iludem.
Prov. port.: Nem tudo o que luz é ouro.
Explicação:
1-2) Não andes a namorar duas raparigas ao mesmo tempo. Isso é fonte de dificuldades de vária ordem.
Casa com uma, vive com ela e paga todo o alambamento à sua família. Depois, se quiseres, começa a juntar dinheiro para dares pela outra.3) Mas sê muito prudente na escolha. Olha que vemos caras e não vemos corações. Quantas vezes as mulheres parecem boas e saem depois uns bons trastes...
B) DEPOIS DO CASAMENTO
O filho casou. Nem por isso, ficou livre da tutela da família. Não poderá esquecer os seus; mal lhe vai se lhes não manifestar, gratidão por simples visitas, ou ofertas generosas.
No tocante ao casamento, a família tem o direito de estar sempre ao corrente de tudo, pois a noiva foi escolhida pela família, e esta não ficou inactiva quando o filho pensou em arranjar o dote para a futura esposa: durante longos anos o ajudaram a completar a soma estipulada.
Se o filho se queixar de que a mulher, com quem casou, toma umas certas liberdades com outros homens, a família dir-lhe-á que a culpa é dele por não ter seguido os seus conselhos pois devia ter vigiado mais de perto o proceder da mulher.
Sucede, por vezes, que, logo no inicio da vida de casados, uma questiúncula vem azedar os laços familiares, e o homem, desgostoso, pensa em despedir a mulher, mandando-a, para o lugar de origem. Logo a família, do homem surge com bons conselhos, recomendando-lhe calma e tempo para ver como as coisas vão evoluir.
Não raro sucede que o homem, meses depois do casamento, começa a conquista de mais uma mulher, deixando para segundo plano a legítima esposa. Pode esta sentir-se ofendida e resolver abandonar o lar. Mas, se tal não acontecer, começará a ser mais reservada, menos zelosa, e um dia o homem pode ver-se em sérias dificuldades pois as mulheres de mau porte não costumam, criar raízes no lar.
Logo que a família se apercebe das intenções do filho, não faltam os conselhos mais sensatos.
TESTO N'5
(diametro : 17cm)
Figuras :
1-2) Cao a comer no cesto.
3 - Lagarto.Provérbios:
1-2) Ntende i baka i mbuá.
I nuku ké iúa mu au."O cão está a comer o embrulho. Cheirou-lhe."
Sentido: o culpado não é o cão, mas o dono do embrulho que o não soube guardar.
Prov. port.: o cão só come o mal acautelado.
3) Chi mpandi na li talanga.
«O lagarto está a olhar» (mas nada faz para que o cão não coma.)
Sentido e Prov. port.: quem cala consente.
Explicação:
1-2) Com que então estás desapontado com o proceder da tua mulher? Pelos vistos, sabes até quem é o seu devaneio.
O culpado és tu e mais ninguém. Com tempo te dissemos que não lhe desses tanta liberdade, que a acompanhasses para as festas. Não ligaste importância aos nossos avisos. Por isso nada mais natural do que o escândalo que tens à vista.
3) Agora queres expulsar a mulher. Achamos que não tens razão. O único culpado de tudo foste tu, pois viste certas familiaridades e nada disseste, com nada te preocupaste....
O que tens a fazer é esquecer... e ser mais, previdente e vigilante no futuro.
TESTO N'6
(diametro: 15,50)
Figuras :
1 - Cachimbo.
2 - Folha da planta "Lelele".Provérbios:
1) Ngeie me' baka i timba chi mona, podi ku loza nkodi kó.
«Arranjaste, um cachimbo novo, não deites fora o velho" (pois ainda o podes precisar.
Sentido geral e Prov. port.: tudo tem a sua utilidade.
Sentido aplicado ao casamento : cachimbo velho é a primeira mulher, com quem o homem casou. Cachimbo novo é a segunda mulher, que o homem escolheu posteriormente. Como ainda lhe não conhece o feitio, o melhor é ficar com as duas... É que as mulheres de vida fácil não aquecem o lugar, e pode vir a ficar sem nenhuma...
Prov. port.: guarda o que não presta, terás o que precisas.
2) Titi. chi Lelele i ti-ti chi Nkamba: Monti ku sie' zaba kó tumuna, mé tumuna chi-na chi ké mbongo.
«A planta Lelele e a planta Nkamba: Quando as não distingues, és capaz de arrancar a que serve para comer» (deixando ficar na terra a que é erva daninha, pois têm a folhagem muito parecida.)
Sentido: não atender só às aparências.
Prov. Port.: a quem só merece fitas, dão-se grelos; a quem merece grelos, dão-se fitas.
Explicação:
1) Já tens em casa uma segunda mulher. Isso é já contigo. Mas lembra-te que nem por isso deves desprezar a legítima esposa, pois, quando menos contares, podes vir a precisa-la.
2) Pensa no que ela te fez, nos sofrimentos que passou na tua casa e sê cauteloso e prudente, não vás tu despedir a boa mulher, que tão bem te serviu, e meter em casa uma outra que te não sirva para nada.
TESTO N'7 (R)
(diametro: 14,30cm)
Figura:
Botija de barro.Provérbio:
Nkudu u kala luelu kó.
«A botija de barro não tem medida», (Não se pode ver se "está cheia - ou vazia).
Sentido: não julgar pelas primeiras aparências e impressões.
Prov. port.: ainda agora a procissão está a sair da igreja...
Explicação:
Então tu dizes que a mulher é fraco traste e só agora a levaste para casa?
Não desesperes tão depressa. Espera um pouco mais para a conheceres; depois já poderás falar com conhecimento de causa. Bem sabes que o casamento é uma questão de sorte.
Nós não desgostamos dela. Parece ter qualidades.
Tem pois um pouco mais de paciência. Não desanimes com as primeiras dificuldades. Não suceda que, efectivamente, seja boa e a mandes embora da tua casa, arranjando outra talvez ainda pior.TESTO N'8 (R)
(diametro: 16,50cm)
Figuras :
1 - Homem.
2 - Ratoeira.Provérbio:
1-2) Muntu ui bandika ntambu.
A kete mpuku, chi onso chi bakana mu au,
bi liá ba muntu li monho.«O homem colocou a ratoeira (armada). O que ela apanhar, mesmo um rato, há-de servir como comida para aquele homem.»
Sentido: para tudo é preciso sorte. Mas devemos contentar-nos com o que nos toca, pois é melhor que nada...
Prov. port.: mais vale pouco que nada.
Explicação:
1-2) Casaste com esta mulher. É certo que não é uma mulher ideal.
Aceita-a conforme é e conforma-te, pois podia ser muito pior...