CAPITULO VI
CASA QUE JÁ TENS IDADE...
Vivia na região do Maiombe, Cabinda a, um europeu que, se não conseguiu grandes meios de fortuna, pelo menos tinha seis filhas, todas elas ainda novas. Quando os nativos iam ao seu comércio falavam de tudo e de todos. A conclusão era, quase sempre a mesma: «o patrão é muito rico porque tem seis filhas ... »
Neste pormenor podemos ver a mentalidade clânica bem definida no tocante ao valor que as filhas têm adentro da família tribal.
Nasce um rapaz. Os cuidados são sumários. Vai crescendo como pode e a vida lhe permite. Quantas e quantas vezes anda mal vestido e quase esquecido dos seus. Mas se nasce uma rapariga, então a alegria é muito maior. Nunca lhe faltarão as atenções e cuidados de todos. Jamais andará mal vestida; nem sequer suja.
A razão é muito simples: o rapaz terá de arranjar muito dinheiro para mais tarde pagar pela sua noiva, recebendo então a ajuda de toda a sua família. Logo que começa a trabalhar, começa a amealhar...
Ao contrário, a rapariga, logo muito nova, dá rendimento à família. Muitas delas são pedidas em casamento ainda jovens. A partir desse momento está a cargo do noivo. Semanalmente terá ele de a visitar e de lhe oferecer prendas de uso diário: sabão, sabonete, perfume, tabaco e roupa.
Fica pois económica a criação de uma filha. Quando chega o momento do casamento, as ofertas são contínuas, em roupa, dinheiro e géneros. Tudo somado atinge facilmente a quantia de 6000$00 (seis mil) escudos, e mais.
A fonte de receita não seca com a celebração do casamento. Quando a sua família tiver muito serviço, virá ajudar. Não esquecerá o caminho que leva à casa paterna, sempre com presentes. O marido é que terá de arcar com todas estas despesas extraordinárias.
Por vezes sucede que a lua de mel não dura muito.... e, mal o homem se descuida, dá pela falta da mulher. Encontra-a em casa da família. Só voltará depois de tudo bem explicado, conversado, e «reparado» com várias ofertas à família.
De casos soubemos nós em que a filha foge, por motivos fúteis, só para conseguir algumas ofertas mais para a família.
Uma mulher de vida fácil também é fonte de receita para os seus. E quando a filha não encontra pretendente... é a própria família que a manda por aí fora...
A própria mulher precisa de um homem: para lhe fazer a casa, ou a simples cozinha; para lhe dar os panos com que se vestirá. Há excepções, mas o normal é que quem consegue dinheiro para essas roupas é o homem; e quanto a construir a cozinha só o homem sabe. Se a mulher tem família, ainda poderá viver mais ou menos desafogadamente. Se a não tiver, mal lhe vai se não casa, ou não vai procurar os homens...
Além de tudo o que fica exposto, há mais uma razão para explicar o desejo que a mulher tem de casar: a sua valorização em face da sua sociedade.
O celibato era excepção nessas terras, reservado às donzelas que guardavam as insígnias reais.
TESTOS N
° 41(Diâmetro : 15,50 cm)
FIGURAS :
1) HOMEM
2) TARTARUGA
3-4) CABO E MACHADO
5-6) FACAS COM CABO
7) CABO DA FACA
8) FRUTO CHIALI-MIOKO
9) COGUMELO
Provérbios:
1-2) Nku... nku... nkuvu ami... oio.
«Esta tar... tar... tartaruga é minha.»
Nota: Assim dizia um gago que viu uma tartaruga. Mas o companheiro, que estava próximo, também a viu, agarrou-a imediatamente e, por isso, lhe pertenceu...
É este o resumo de uma fábula dos Cabindas. Por ela querem significar que só podemos chamar nosso ao que, de facto, temos na mão, em nosso poder. Simples promessas de pouco valem.
Porverbio Portugues : prometer não é dar, mas os néscios contentar.
3-4) Tali chi sokuka, chi podi kuanga nti kó.
Muntu si kuema kó muna mva nti.
«Machado sem cabo, não pode cortar uma árvore.
Primeiro, o homem tem de lhe pôr um cabo."
Nota: O raciocínio é fácil. A aplicação é evidente: a mulher é o machado. O cabo é o homem.
Com o cabo, o machado fica valorizado. O mesmo acontece com a mulher.
Existe aqui - e noutros testos - um simbolismo que preferimos deixar à imaginação do leitor. Chamamos também a sua atenção para o realismo dos Cabindas.
Porverbio Portugues : cresce o ouro bem batido, como a mulher com bom marido.
5-6) Mbele i kuama, muntu li monho li simbizi kó, podi sala chi mvele kó.
Mbele vana koko ku muntu.
«A faca com cabo, quando não está na mão do homem, não pode trabalhar. A faca só na mão do homem» (é que trabalha e tem valor).
Sentido: a faca com cabo... é a mulher casada, a qual deve viver para o seu marido; só sendo fiel é que tem valor e estima.
Porverbio Portugues : à mulher casada, seu marido lhe basta.
7) Minu mé chitukua mbele senguele.
«Eu fiquei faca sem cabo.»
Sentido: mulher que não casou, ou enviuvou.
Porverbio Portugues : quem andou, já não tem para andar.
8) Chiali-mioko: nhalizi mloko ké zi nfumu i zi nganga.
«Abre as mãos: estende as mãos para os chefes e feiticeiros.»
9) Vana bi liá buku, va ké muana nchientu.
«Onde se comem cogumelos, sinal que nessa casa há uma rapariga» (que os foi buscar ao campo).
Sentido: a mulher deve viver para o lar.
Explicação:
1-2) Não percas a ocasião que se te apresenta para casares, e que te é dada por este namorado.
3-4-5-6) Casando ficas arrumada e tens a vida limpa e segura. Nós já não andaremos com preocupações a teu respeito. Além disso, ganhas também dignidade como mulher casada.
7) Olha que outra ocasião pode não surgir.
8) Depois de casada procura estimar o marido.
9) Não lhe faltes com nada que for da tua obrigação.
TESTOS N
° 42(Diâmetro : 17 cm )
Figuras :
1) Homem2) Mulher
3) Arco de subir as palmeiras
4) Dendem já cortado e caído no chão
Provérbio:
Ba Woyo bi tina zi ngazi: ziá buá, b'eki sassa.
«Os Cabindas cortaram dendém: depois de cortado degranam-no (para fazer óleo de palma). »
Nota: Era Lei geral do Reino de N’Goyo aproveitar todo o dendém e não o deixar estragar.
A produção do óleo de palma, hoje em dia, é feita em grandes máquinas, apropriadas para o efeito. Mas os Cabindas usavam antigamente, e ainda hoje há quem o faça, um sistema mais simples: depois de cortado, o dendém fica alguns dias no cacho até ficar bem maduro. Então é separado do cacho e metido num poço subterrâneo, que tapam com folhas e terra, depois de estar quase cheio. Aí fica alguns dias a curtir.
Seguidamente é cozido em grandes caldeiras. Assim preparado, é metido numa espécie de rede, feita de cordas vegetais, a qual fica presa a duas estacas. Por intermédio de uma retranca a rede é apertada e o óleo começa a escorrer.
Alguns Cabindas metem ainda essa massa espremida em água a ferver para lhe extraírem mais algum óleo, de qualidade inferior.
O provérbio aplica-se à mulher nativa, a qual, segundo o pensar da tribo, é feita para coabitar e ter filhos...
Porverbio Portugues : ovelha que não esterca, fora do bardo.
Explicação :
Já estas crescida. Já tens idade... Trata da vida ... Arranja um homem para casar; ou então, vai por ai fora tratar da vida..., pois a mulher e feita para coabitar e ter filhos. Mulher que não da filhos e riqueza a família, não nos serve...
B) DEPOIS DO CASAMENTO
CAPITULO I
O CASAMENTO E UMA SORTE
TESTO N
° 43 (R)(Diâmetro : 16,20cm)
Figuras :
1) Mulher
2) Homem
3) Três coconotes
Provérbios:
1-2) Aú ma tuba munu, aú ma vutula munu.
«Dum lado a boca fala, do outro lado a boca responde.»
Sentido: podemos ter razão, mas quando começamos a discutir acabamos por falar de mais e ofender o nosso interlocutor.
Porverbio Portugues : agarram-se os pássaros pelo bico e os homens pela língua.
3) Papa nkandi uele: i papa i bola ku maiala.
«Muitos coconotes cheios: muitos deles hão-de ficar podres na lixeira.»
Sentido: nem todos os homens e mulheres são bons.
Explicação:
1-2) Olha que não vale a pena estares a barafustar muito contra o teu marido.
Esquece o passado e procura viver melhor daqui para o futuro. Bem sabes que onde há insultos e discussões ambos são culpados, uma vez que cada qual fala mais do que deve.
3) Se afinal não tiveste sorte no casamento tem paciência. Acontece isso a muito boa gente... Bem sabes que nem todos os homens são bons.
TESTOS N
° 44(diâmetro : 16,90cm)
Figuras :
1) Mulher a amamentar um cachorrinho
2) Concha Seva-mbi
3) Fruto Ntumpu-Mvemba
Provérbios:
1) U kambua muana muntu, kuemika muana mbuá.
«Se não tens filho (por te ter morrido), então amamenta um cachorrinho.»
Nota: As mulheres idosas de Cabinda fazem tal e qual aconselha o provérbio: como não têm filhos a amamentar, entretêm-se com o cãozinho dependurado dos peitos, sobretudo quando vão ou vêm dos campos. Todos sabem o significado da cena: vive triste o fim dos seus dias, mas conforma-se com a sua sorte. É este, precisamente, o sentido do provérbio.
Porverbio Portugues : contentar-se com a sua sorte.
2) Seva-mbi;
menu m'aku mi kuma.
«Rir dos males dos outros; os teus dentes ficam secos» (porque um dia virá em que tu também hás-de sofrer).
Sentido: não se rir da miséria alheia, que um dia nossa será.
Porverbio Portugues : não digas mal do vizinho que o teu vem a caminho.
3) Ntumpu-Mvemba: lina tumbukua, li tumbukizi.
«(Afirmo pelo) fruto Ntumpu, consagrado a Mvemba: aquilo que chegou à superfície, apareceu mesmo.»
Explicação:
1) Nos já sabemos que o teu marido não e o ideal. Mas que queres? Vai-te conformando com a triste sorte que tiveste.
2) Hoje es tu que te queixas, amanha será ele. E assim a vida.
3) Nada mais temos a dizer-te em resposta as tuas lamurias.
CAPITULO II
INDISSOLUBILIDADE DO MATRIMONIO
TESTO N
° 45(Diâmetro : 16,70 cm)
Figuras :
1) Cestos para levar a cabeça
2-3-4) Três cestos de canas para guardar amendoim
5) Duas conchas Ta-nsosso.
6-7) Semente de macoba e amendoim.
Provérbios:
1) Makuela mi tete-tete ma podi zinga kó.
«O casamento de cesta à cabeça não pode durar.»
Sentido: depois do casamento, a mulher não deve andar a fugir para casa da família.
2-3-4) Nganda mpinda podi uala kó.
«O cesto (feito de banzas, espécie de canas) para guardar amendoim, nunca pode ficar cheio» (pois estão sempre a cair).
Sentido: as dificuldades, adentro de certos casamentos, e também na vida, nunca acabam.
Porverbio Portugues : quem se, obriga a amar, sujeita-se a penar.
5) Ta-nsosso: mina nhinga.
«Manifesta, o teu desagrado: engole a raiva.»
6-7) Mbongo mpinda i au i landuka, kaza nkongo i landukanga kó.
«A semente de amendoim passa de um ano para o outro, mas a semente de macoba só dá durante um ano.»
Sentido: a mulher (representada pelo amendoim) é que dá valor ao lar, pois, gera os filhos.
Explicação:
1) Estás casada com o teu marido, e não com o cesto, para andares sempre da casa dele para a nossa, e vice-versa.
2-3-4) Não queremos saber, no futuro, das vossas discussões. Tantas vezes que já nos reunimos em tribunal por causa dessas discórdias e não há maneira de viverdes em paz.
5) Acaba com esses insultos que lhe diriges.
6-7) Cada qual tem o seu valor; respeita-o e exige que te trate como mereces.
Nota: Fala-se aqui em reuniões de tribunal para resolver questões entre esposos.
De facto, quando a paz não reina no lar, a parte lesada apresenta a sua queixa à própria família, ou à autoridade gentílica.
Sendo a família a resolver, convoca os esposos a família da parte incriminada , e tentam resolver o assunto. Normalmente voltam a conviver, mas quase sempre o culpado é multado em certa quantia, condição indispensável para o regresso ao lar da parte descontente.
Quantas vezes nos foi dado constatar estas cenas familiares. Mais de uma vez a reconciliação não teve lugar só porque a mulher não acatou a sentença que a «multara» numa galinha que ela devia cozinhar e oferecer ao marido... E lá ficavam anos e anos, homem e mulher separados, vivendo cada um sem o devido conforto, por causa de uma mísera galinha...
Muitas vezes estas questões são levadas ao chefe da aldeia - ou ao soba - , que se faz rodear dos velhos e dignatários do povo. A decisão tem mais valor, pois e dada pela autoridade local, mas a despesa e digna de se ver.
TESTO N
° 46( Diâmetro : 17,50 cm )
Figuras :
1-2 ) enxada encostada a um monte de salale.
30 Coconote
4-5-6) Cogumelos
Provérbios:
1-2) Nsengu i kambu mvá,
muntu li monho ui kuika i au.
I kambu mvá kuechika van'i kuku.
«Enxada sem cabo, o homem que lho ponha.
Quando não tens pau para lhe pôr cabo, encosta-a ao salalé.»
Sentido: a mulher solteira encosta-se à família;
a mulher casada encosta-se ao marido.
Prav. port.: casaste-te, apartaste-te.
3) Papa nkandi uele:
i papa i bola ku maiala.
«Muitos coconotes cheios: muitos deles hão-de ficar podres na lixeira.»
4-5-6) Buku bu mana buila muinha, bu podi bé tunguma kó.
«O cogumelo que se abriu com o calor do sol, já se não pode fechar de novo.»
Sentido: ao feito já não há remédio.
Explicação:
1-2) Afinal não estás contente com o marido e andas sempre a fugir para nossa casa. Isto não é vida de mulher casada.
3) Concordamos que podias ter tido mais sorte com a escolha, pois o homem te trata mal.
4-5-6) Mas ao feito já não há remédio. Estás casada. Tens de ter paciência.
TESTO N
° 47( Diâmetro : 19 cm )
Figuras :
1-2) Homem a apontar uma arvore
3-4) Plantações
5) Fruto Chiali-mioko
6) Machado
7) Duas conchas Ta-nsosso
Provérbios:
1-2) Nti li sambuka, chi si sambuka bene kó.
Fuanukini u bá sanvi li mueka li mákina.
Ngeie sambuka bene, buili ndumba.
«Para subir a uma árvore, não deves subir de um ramo para o outro. A árvore deve ter um ramo bom para subir. Andas a saltar de um ramo para o outro, hás-de cair.»
Sentido: tanto o homem como a mulher devem viver um para o outro, e não serem infiéis. Só assim poderão viver felizes e ter muitos filhos.
Porverbio Portugues : à mulher casada, o seu marido lhe basta.
3-4) Abu li vata nkala, bila mbongo.
«Agora que preparaste a lavra, procura a semente.»
Sentido: começar a viver bem, e continua sempre bem.
Porverbio Portugues : começar é de muitos. Acabar é de poucos.
5) Chiali-mioko: nhalizi mioko, ké zi nfumu i zi nganga.
«Abre as mãos: estende as mãos para os chefes e feiticeiros.»
6) Tali chi kufi, i libá li kula: mpassi muna kuanga.
«O machado pequeno, e a palmeira grande: custa cortá-la.»
Sentido: na vida não há paz sem entendimento mútuo.
Porverbio Portugues : duas pedras duras não fazem boa farinha.
7) Ta-nsosso: mina nhinga.
«Manifesta o teu desagrado: engole a raiva.»
Sentido: desabafar e depois acalmar.
Explicação:
1-2) Deves ficar fiel ao teu marido, e não podes
andar com devaneios. Só assim podes ser feliz.,
3-4) A princípio davas-te bem com ele. Lembra-te que não é só começar bem; é preciso ficares amiga dele toda a vida.
5) Da tua parte faz tudo para lhe agradar e verás que ele te estimará.
6) Bem sabes que no matrimónio há dificuldades. Se ambos fordes intransigentes, andareis sempre em, guerra.
7) Não o insultes. Sabe esquecer e perdoar.
TESTO N
° 48(Diâmetro : 13,50 cm )
Figura : cesto levar a cabeça
Provérbio:
Makuela mi tete-tete ma podi zinga kó.
«O casamento de cesto à cabeça não pode durar.»
Sentido: depois do casamento a mulher não deve andar a fugir para casa da família.
Explicação:
Afinal de contas andas sempre no caminho que medeia entre a casa do teu marido e a nossa, sempre a fugir de lá para cá, com o cesto à cabeça, carregada com os teus haveres.
Isto não é vida. Bem sabes que casaste, e não deves estar a viver continuamente connosco. Não concordamos com o teu proceder.
Tem paciência. Vai para casa do teu marido e fica lá com muito juizinho...